Assistindo ao telejornal, dia destes, três matérias me chamaram a atenção pela violência e pelo descaso conferido, com igual rigor, aos três assuntos. Como é de praxe, a reportagem denuncia e o poder, de braços cruzados, boceja de preguiça e tédio pela mesmice, pela constância do problema que não cansa de chatear. Diacho, por que essa gente não vai aporrinhar em outra freguesia? – reclama o gordo de gravata, nutrido de muita autoridade.
Na primeira delas, o âncora, impecável e elegante na sua função de âncora, narra com olhar indignado e perturbador uma série de atos violentos que sujeitaram e vem sujeitando estudantes da USP. A explicação esfarrapada diz respeito ao tamanho do campus que é escancarado e que à noite fica ao Deus dará. Diga-se de passagem, a responsabilidade pelo ato criminoso naquele espaço vem sendo mesmo imputada a Deus por ter ele inventado a noite. Entretanto, se considerarmos que ela é fato e que acontece todas as vezes em que o dia acaba, necessário se torna inquirir da autoridade policial uma postura mais condizente com a realidade noturna daquele lugar.
Qual o quê! Ela dá de ombros…
Em outra reportagem, o mesmo telejornal apresenta ao vivo e em cores, a ação nada discreta da rapaziada que dá duro nas ruas cariocas, para faturar o sustento. Tem indivíduo ali, meliante profissional dos bons, que não alcançou ainda os quinze anos, e outros que há muito ultrapassaram os dezoito, orientadores contumazes dos pequenos. A polícia até que captura alguns espécimes, mas os devolve sadios ao seu habitat, garantindo-lhes o direito de exercer o seu trabalho digno que consiste em se apropriar de objetos alheios, à luz do dia, despertando na população aquele desejo incontido de trocar de endereço. Ciente da impunidade, inclusive, é até capaz de fundar um sindicato, aquela corja. Afinal, é preciso uma associação que os represente caso haja algum contratempo no serviço. Aliás, um sindicato do crime, debaixo desta vasta lona, em pouquíssimo tempo contaria com um contingente de associados de dar inveja em metalúrgico!
O terceiro assunto diz respeito a outra diligência, de que se vale o poderio econômico desta Terra. Uma que não tem a intenção de ferir ou matar isoladamente cada homem. Pretende sim eliminá-lo no todo, sem considerar raça, credo, posição social, índole. Aniquilação, aliás, é o termo mais adequado, uma vez que não há nada de poético no drama que ora se apresenta.
O esgotamento dos recursos naturais do planeta, obra caprichosa do próprio ser humano, é que porá fim aos seus anseios de poder. Poder que vem por meio do dinheiro que é produzido aqui, mal distribuído aqui, e que só pode ser gasto aqui neste solo judiado que promete dar o troco.
A devastação da Amazônia, matéria que encerra o jornal, é por assim dizer parte do problema. Os números impressionam. Procuro não dar ouvidos para não pensar, mas o monstro está lá e promete botar o dedo de unha suja no olho de toda a gente. Curioso é que o bicho só não assusta os governos que vêm e que vão sem que uma única assinatura seja colocada numa folha vagabunda de papel, com o intuito de conter a fúria da serra elétrica. E, a julgar pela velocidade com que se dá a coisa e os efeitos climáticos já sentidos no coro, isto só terá fim quando não houver uma única árvore de pé na região.
Congratulações, pois, ao bicho homem que derruba a própria casa, quando sabe que não tem outro lugar para morar.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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