VIDA CONGESTIONADA

Dizem que viver é complicado. Com certeza é. Mas quem tem de suportar o trânsito dos grandes centros, sobretudo em horário de pico, percebe que viver pode ser ainda mais complicado. Apesar da velha rotina sempre cumprir o seu papel de transformar tudo em mesmice e dar aquela sensação de normalidade que conforta por fazer lembrar que tudo tem que ser assim e pronto. O mesmo sentimento que se apodera do espírito nacional quando se fala de política, juros e impostos aviltantes, criminalidade…

É fato que há um movimento promovendo intensa discussão a respeito do engarrafamento nosso de cada dia. Os técnicos que de tudo entendem, juram que um dia trava, e sugerem, inclusive, aumentar a largura das ruas ou então diminuir a dos carros. Claro que se qualquer destas alternativas for opção, o homem logo concluirá que mais carros poderá colocar nas cidades, e as fábricas trabalharão noite adentro somente para preencher os espaços vazios. E tudo voltará a engarrafar.

Faz parte da paisagem urbana, afinal, a fila de lanternas vermelhas em princípio de noite, cujo término os olhos nem podem vislumbrar. E o pobre habitante desses lugares, sempre refém dos horários, se desespera ao ver frustrada qualquer expectativa de chegar a tempo na consulta, na aula, no encontro, no que quer que tenha sido marcado para aquele momento crucial. Até porque, sua agenda, que anda cheia, tem sempre um ou outro compromisso que ficou para depois.

Envolto em seus pensamentos ou refletindo acerca do que diz o homem do rádio, o motorista dirige naquela tocada que faz o ponteiro do velocímetro estacionar no zero por infindáveis minutos, sair por uma fração deles e voltar em seguida. O indicador do combustível, este sim se move com rapidez.

Lá fora há uma profusão de luzes, buzinas, motos enlouquecidas, e reflexos, e silhuetas de gente em outros veículos, em outros mundos de pensamentos, num teste de paciência e determinação.

O trânsito atrapalha e congestiona a minha vida, penso eu. Apesar de que, constato aborrecido, meu carro também faz parte desta loucura urbana e só está aqui para engrossar a massa de ferro, vidro, plástico e borracha que configuram pedra no sapato de quem tudo o que deseja é avançar.

A solução é mesmo o transporte coletivo, velho clichê nas rodas de discussão. Mudarei, então, pela manhã. Vou morar em Tóquio, porque no meu país esse meio de locomoção, não recomendo a ninguém. Posso também ficar e ir ao trabalho de bicicleta, como querem alguns. Mas serei minoria absoluta e terei de disputar no braço com quem só anda de carro, um lugar onde pedalar e, provavelmente, serei atropelado e perderei a magrela. Quem sabe até o sopro divino venha a se extinguir nesta empreitada.

Detesto admitir, eu que sou professor de português, mas não vejo solução no campo dos reais. Afinal, veículos brotam aos montes das concessionárias, campanhas apelam para que se troque o velho “pois é” por modelos cada vez mais sofisticados e lindos. E as ruas, aos poucos mais apertadas e insuficientes, é o que têm para trafegar nossos carros de muitos cavalos. Ah, cavalos! Nostalgia que os ecos do passado fazem chegar até o século vinte e um.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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