Famoso ele não era. Talvez, lá no pedaço, palco de muita discussão sobre futebol, lugar de bebedeira e bilhar onde amigos de mesma camisa ou não, são alegres e barulhentos torcedores.
A definição de torcedor aí pode ser de gente muito comprometida e fanática que não gosta de ser chamada de fanática, mas que se ofende com as chacotas recebidas quando seu time amarga derrota.
De nada adianta, inclusive, indivíduo que vai ao estádio, ostentando o pavilhão do clube, dizer que não é louco por ele. Discute sim, briga sim, até cospe para falar a respeito da falha deste ou daquele, do técnico que ganha muito para pouco fazer, das possibilidades que tinha à mão e não aproveitou…
Assim é possível que fosse o moço que foi ver de perto o time adversário perder. Não de sua equipe, mas de outra que nem um grama de carinho lhe inspirava. Foi tão somente assistir à queda daquele contra o qual nutria ódio sem par. Claro que, dentre seus jogadores, equipe técnica, diretoria, não houve quem lhe desferisse ofensa mortal. Detestava o clube de graça. Talvez para não trair o costume de se odiar o rival, como reza a cartilha de toda torcida.
Que não desse as caras no estádio aquele dia, era possivelmente o desejo de alguém muito próximo, uma mãe, quem sabe, cheia de amor e premonições. Destas que sentem calafrios quando um sinistro se aproxima do ente querido. Mas ele, jovem que carregava ainda aquela chama que durante um tempo queima no espírito humano, não haveria de dar ouvidos e perder peleja tão importante.
O resultado, por fim, até que lhe agradou. Só que houve confusão na saída e, para azar, numa terra onde costuma chover pouca água, agora deu de chover privadas. Isso mesmo, bacias sanitárias! E o rapaz, coitado, que não levara guarda-chuva apropriado para proteger a cabeça de louças pesadas, acabou em desvantagem, tombando ao solo quando uma delas lhe acertou em cheio. Torcedor como ele, com autoridade para determinar o destino do outro, providenciou o seu fim.
Agressão barata esta que põe em xeque o conceito de limite, de liberdade e de bom-senso no apego ao esporte bretão. O corpo inerte ali, coberto com lençol, destituído do sopro da vida, é violência que salta aos olhos do humano que não entende como humano seja capaz de esmagar humano como a um inseto, também de graça. Há um sentimento de perplexidade diante da atitude do homem capaz de arrancar de seu santuário o vaso e dar a ele outro destino, despojá-lo de sua função primeira para transformá-lo em arma, só para dar cabo do semelhante que fora ao estádio assistir a uma partida de futebol.
Partida também do moço que deixou para trás um mundo com seus times, suas paixões que conferem tempero à vida, e ferem, e matam.
O fato, por conseguinte, pegou mal, e o estádio foi interditado pelas autoridades, só para inglês ver. Logicamente que logo se aproveitaram da distração do gringo para desinterditá-lo, simplesmente porque a vida não pode parar, muito menos o futebol.
Mas e o torcedor, vítima da chuva? Nem sabe que morreu, judiação. Sua família, esta sim amarga a ausência brutal que o país da copa tratará de esquecer como esqueceu tantos outros, para pensar na vitória. Vitória que só os pés da seleção poderão trazer, já que a verdadeira glória, que está em promover o bem-estar social, é conquista que depende de boa equipe técnica e de bons dirigentes, coisa que o Brasil definitivamente não possui. Fica, então, para depois o que não é prioridade agora.
Jeito não há, pois, senão correr para o abraço no momento em que a rede adversária balançar. É o que resta, é o que consola.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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