TIRO CERTEIRO

O avião decolou de Amsterdam com destino à Austrália. Minutos antes, pulsações desenfreadas em peitos ansiosos, marcavam o compasso de espera. Eram as pessoas que buscavam acalmar-se pensando na viagem, na chegada, em tudo que pensa alguém que embarca rumo ao novo, ao inusitado, cheio de uma expectativa palpável. Motivos tinha de sobra, aquele pessoal que galgava os degraus rumo ao interior do aparelho, para sentir aquele tão peculiar frio na alma. Um deles, o receio íntimo, incontido que a própria perspectiva de voar costuma oferecer, vinha da lembrança perversa de pessoas que tiveram as vidas abreviadas porque se lançaram aos céus a bordo de aeronaves. Pensamento sinistro que sempre busca sabotar o clima de descontração em viagens aéreas, mas que, naquele instante, cedeu lugar à euforia, e gente de todas as idades se uniu no interior da máquina, cheia de entusiasmo, sem saber que participava de um encontro entre irmãos de igual destino, afinidade que a miséria humana haveria de promover.

Entretanto, quem ali consideraria, verdadeiramente, a possibilidade de não alcançar a Austrália? Além do mais, voar é bom e seguro! Nada pode dar errado quando se vive tamanha alegria!

Assim voava o sentimento a bordo. Porque gente é sentimento. Além de órgãos que se desfazem com facilidade no ar, alegria e tristeza, afobação, vontade, angústia, sonhos, imaginação, são também importantes componentes humanos. A verdadeira cara do ser. Nada difícil, pois, imaginar os rostos, as expressões, conversas e risadas. Personalidades moldadas pela formação que, a julgar pela procedência de cada um, devia se alojar um andar acima da média geral neste mundo.

Mas e daí? Naquele lugar, concebido a princípio para a praticidade e o conforto de quem necessita viajar para longe, nada mais eram que organismos vivos expostos à fragilidade de depender da máquina que voa e sujeita. A mesma que, uma vez no céu, pode despencar por conta própria ou com o auxílio de alguém que desfruta da segurança que o solo oferece.

Mas ninguém pensava nisso no abrigo da fuselagem que com o passar das horas já parecia espremer o passageiro entediado com a quilometragem. Um tanto cansado daquele espaço, fazia uso do livro, do filme, do sono, para passar o tempo.

Mesmo assim, tudo era felicidade para os que ocupavam o interior do avião, e que não desconfiavam que a morte, sempre à espreita, arquitetava plano para determinar um único destino para passageiros e tripulantes. Lá adiante um objeto, também voador, tramava contra eles. Planejava transformá-los em pó, juntamente com seus sonhos que então voariam tocados pelo vento.

A morte, pois, se serviu das mãos de alguém do chão para executar com maestria seu intento de liquidar aquela gente toda que viajara feliz até ali.

Talvez um único botão, acionado por um único dedo, fora suficiente para fazer o foguete entender que era momento de partir em disparada e fazer em pedaços o veículo no céu.

Um lamentável equívoco, teriam alegado os proprietários do projétil que nada sabia a respeito da vida, suas paixões, desencontros e intolerância. Se soubesse, é possível que permanecesse em terra. Talvez não fosse tão frio quanto o seu inventor.

Mas não tem nada, não. O mundo dos homens, afinal, tem memória curta e logo se esquecerá de como o voo que partiu da Holanda rumo à Austrália, foi interrompido a meio caminho pelo caprichoso sujeito e sua incontrolável coceira no dedo.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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