O pessoal do metrô faz greve. Luta pelo direito de ganhar mais. Muito justo isso de apertar o patrão para conseguir aumento de salário e assim conquistar vida melhor. É possível até que consiga… Afinal, é forte a categoria que, uma vez parada, leva a cidade ao caos.
E caótico torna-se o cotidiano da gente que depende deles para se deslocar para o trabalho e deste para casa. Quem se importa? Talvez a situação sensibilize quem é de direito, o mesmo que deve meter a mão no bolso para livrar o cidadão de mais esse tormento. Povo sofrido que normalmente segue dependurado no ônibus e que agora briga pelo direito de continuar dependurado, já que muitos ficam de fora só apreciando a condução que passa ao largo. O perverso motorista, que não tem culpa de ser tão malvado, acelera ao invés de parar. É possível que siga a lógica científica que determina que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço.
Há vezes, porém, em que o ônibus, ainda que abarrotado, para no ponto. É quando o profissional do volante, muito experiente, verifica que há espaço no primeiro degrau, que pode perfeitamente abrigar uma dezena de pessoas. Alegra-se, então, quem consegue embarcar em meio a empurrões e cotoveladas, feliz de verdade com a graça recebida de finalmente seguir para o seu destino.
Contente, não se importa com o aperto. Apesar de que, a partir daí, passa a vislumbrar outro sentimento ambicioso que já povoa os seus sonhos: avançar dentro do veículo e chegar à porta de desembarque. Até porque, não demora em constatar, cheio de apreensão, que provavelmente ficará para trás o seu ponto de parada. Não descarta, inclusive, a possibilidade de fazer acordo com o motorista e ganhar a rua pela porta de entrada, caso não consiga mover o pé um centímetro sequer durante o trajeto.
Drummond fala das pernas nos bondes. Fica mesmo difícil não pensar nelas numa condução em horário de pico. E nos pés que se movem uns sobre os outros, e nas caretas de dor de quem reclama e presta sensível homenagem à mãe de quem pisou.
E o veículo segue sacudindo e ajeitando a carga. Dentro, um frenesi de braços e mãos que se misturam na ânsia de alcançar a segurança do ferro frio, desconforto que, com frequência, é realçado pela desagradável presença do pústula que carrega uma enorme mochila nas costas e força a passagem pelo corredor apinhado.
Assento disponível num transporte desses é artigo de luxo, privilégio de quem pega o ônibus nos pontos iniciais. De luxo ainda maior desfruta aquele que consegue o assento da janela, já que o viajante do corredor conta sempre com a inconveniente companhia do sujeito despeitado que se aproveita da situação para depositar solene a barriga e demais apetrechos no ombro do insuportável que tem a sorte de viajar sentado.
“Dá licença! Vai descer! Motorista, ‘pera’ aí, vai descer! Licença, por favor!”
Nas calçadas o vai-e-vem apressado é constante preocupação com o trabalho que exige pontualidade porque não pode parar, porque gira a roda da economia que também cria trabalho. E o tempo urge. E passageiro sobe, e passageiro desce, e há correria e atraso.
E o metrô parado! Muito justo!
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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