É puro equívoco imaginar que já se viu e ouviu de tudo nesta vida. Mesmo porque, todo conhecimento que volta e meia nos parece de nosso inteiro domínio, é ilusão que felizmente a realidade trata logo de desfazer para mostrar que é preciso ir bem mais longe.
Faz parte de meu trabalho ouvir o ser humano, o que de fato muito contribui nesta caminhada em busca de pormenores sobre situações com as quais nem sempre estou habituado. Exemplo do que ocorreu em conversa com dois rapazes cujas caras começavam a ostentar aquela barba rala, alvorecer da maturidade. O que se seguiu, pois, teve origem a partir de um assunto que me foge à lembrança, mas que me despertou o interesse sobre uma questão eternamente polêmica. E, mesmo ciente de sua presença comum, não me encontrava a par de certos detalhes trazidos pela experiência de quem, há muito, lida com a coisa. A apreensão foi inevitável, embora tenha vindo para acrescentar algo mais na bagagem que carrego.
Tornou-se, de qualquer forma, preocupante por ter sido relatado assim, à queima roupa, por quem vive no meio. Eram meninos, orgulhosos meninos com suas tatuagens a fechar costas, peitos, pernas, braços e, suspeito até de sua dificuldade em poupar o membro que lhes confere o garboso atributo masculino. Fechar, aliás, é jargão dos apreciadores da arte de pintar partes inteiras do corpo com desenhos que duram a eternidade terrena. É como se a pessoa vestisse uma roupa que não mais quisesse tirar. Faz lembrar, inclusive, a menina que vi um dia destes: muito bela, tinha braços que pareciam revista em quadrinhos. Pior, uma miscelânea de desenhos incompreensíveis. Fiquei meio contrariado pelo contraste da beleza da garota com a arte que a moda chama de irado, da hora, ou sei lá o quê. Ao se abaixar, a camiseta curtinha ainda revelou mais páginas coloridas acima dos quadris, que eu sinceramente estive tentado a observar mais de perto, embora tenha mesmo contido meu ímpeto e viajado nas minhas divagações, imaginando talvez a frustração do companheiro que, em momento íntimo, diante da moça sem roupa, constata que ela não está nua, nem poderá ficar. Claro que normalmente há afinidade entre ambos e a coisa é apreciada conjuntamente.
Voltando, porém, aos rapazes esquecidos lá no início, o que se seguiu foi mesmo um bate-papo descontraído sobre tatuagens, demais adereços e drogas, além de particularidades de suas vidas dentro e fora das controvertidas festas raves. E, no desenrolar da conversa, nem reparei que estava de boca aberta, provocando gargalhadas nos garotos inconformados diante da minha reação enquanto desfiavam suas receitas. É isso mesmo, receitas! Misturas bombásticas de medicamentos com bebida alcoólica, resultando em coração disparado e performance demolidora daquela parte do corpo que concede ao homem o status de macho.
Um tanto surpreso com a sequência de relatos, e um deles ainda dispara a enumerar as reações físicas depois de ingerida uma bala, que certamente não é aquela de hortelã que qualquer criança compra no bar do Seu Zé.
Procurei, por fim, não perder uma única palavra, principalmente das tais festas e seus frequentadores que, em dado momento, podem atingir um estado chamado por eles de frito, e que não permite apreciar nada mais por causa da mente alterada por um sem fim de bombas químicas.
Permiti, pois, que se divertissem com a cara de um sujeito estupefato por conhecer um cotidiano vivido por eles, os garotos para quem viver é isso, paradoxo intransitivo com significado estranho ao entendimento de quem não curte o meio.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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