Tenho assistido à TV e ela insiste em denunciar a precariedade de que se serve o departamento de saúde desta terra de ninguém. É de causar espanto! Mas nada como estar refém dele para sentir na pele o tamanho do problema.
Relatou-me, pois, um amigo muito próximo, sua aventura em unidade de pronto atendimento de sua cidade, localizada em região metropolitana respeitada mundo afora pelo seu tamanho e poder de compra.
Era noite de chuva e frio quando a ambulância foi chamada para conduzi-lo a um lugar que pudesse prestar-lhe socorro, já que desabara no banheiro de casa, acometido por mal de ordem corriqueira, embora desgastante e que veio a causar susto e botar em polvorosa a família e principalmente a coitada da esposa que lhe quer muito bem.
Não sofreu maus tratos, este amigo, no tal lugar. Reclamou somente da falta de informação médica, um diagnósticozinho qualquer, seguido de receita para a sua recuperação. É o que se espera na presença de seu doutor.
Ao invés disso, teve que engolir uma garrafa de soro com alguns medicamentos, paliativos que não o livraram do mal físico contra o qual permaneceu lutando com remédios caseiros. Quase secou, o coitado. Viu toda a água de seu corpo cair para os índices da Cantareira. Admite, contudo, que o soro ajudou.
Mas não haveria ressentimentos não fosse o frio, aplacado somente pelos papéis que lhe cobriram o corpo enquanto o líquido pingava lentamente. Conforto proporcionado pela mulher que viu como única alternativa de coberta aquele rolo de papel que se usa para forrar macas. “Há de servir.” – pensou, dedicada e preocupada por ter saído às pressas e esquecido de levar agasalho.
Confessou-me, inclusive, o doente, sua apreensão ao sentir-se meio morador de rua, desamparado e debaixo de cobertor de rua. Faltou a cachaça.
Só lá pelas tantas vieram com um lençol, provavelmente constrangidos diante do improviso. Gente boa, afinal, nas mãos de quem não está o poder, a fatia maior. Cabe a ela somente trocar fraldas, espertar este e aquele, higienizar, e ouvir reclamações.
Meu amigo relatou que não chegou a se revoltar, pois, revolta é coisa de manifestante, e ele não estava ali para uma passeata. Até porque, faltava-lhe coragem para qualquer ato de protesto. Sua energia minguada mal lhe permitia permanecer de olhos abertos.
Apesar de que, verdade seja dita, foi muito profissional e um tanto solidária a enfermeira que o acomodou numa espécie de divã ou qualquer coisa assim. Era revestido por um plástico em frangalhos, denunciando os longos anos de serviços prestados. Havia também um ferro no móvel de ferro, que serviu de almofada para os quadris exaustos de meu amigo que inicia com lágrimas nos olhos o relato desta passagem. Segundo ele, tentar dormir era pretensão demais. Espetado e trêmulo, viu a noite que custou a passar.
Habituado com o aconchego de sua cama e do magnífico corpo da mulher, meu amigo amargou uma longa espera no soro, desfrutando de toda a comodidade que o serviço público de saúde tem para oferecer. Ao lado, claro, da esposa para quem foi gentilmente cedida uma cadeira.
O casal adorou ver clarear o dia. Mas ainda havia de esperar, cheio de paciência, pela médica, que custou a aparecer, para efetuar avaliação do quadro e decidir sobre o destino do ser humano que ali estava. Antes não tivesse chegado. Concedeu-lhe de bandeja toda a grosseria a ela conferida pelo diploma na parede.
Sem dizer palavra, meu amigo do peito deixou o consultório, dirigiu-se à enfermeira, solicitou que retirasse a peça que ainda carregava no braço, e ganhou a rua, respirando fundo para desintoxicar os pulmões.
Marido e mulher pareciam, então, jovens namorados de volta da balada, alegres que estavam pelo retorno à vida.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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