Não chove. Somente uns poucos pingos que a misericórdia divina lança cá para baixo com o conta-gotas. E então o tempo fica assim, seco de verdade, tal qual clima de deserto. O que será de nós, pobres seres feitos de água, sem água?! O governador, detentor de todo o poder a ele conferido pelo voto, prometeu que vai mandar chover. Só não sabe se São Pedro lhe dará ouvidos. Isso porque tem consciência, embora não admita, de que o santo não é brasileiro e, por conseguinte, inoculado contra o mal da conversa fiada. Tampouco lhe apraz, justo que é, propina de qualquer monta. E, no andar da carruagem, político ou padre, não há quem convença o intercessor que anda irredutível e promete não amolecer nem mesmo em nome de sua amizade com São Paulo.
E parte para o desespero esse povo que antes só se comprazia com futebol, novela e programas de auditório, dedicando hoje um pouco de seu tempo televisivo também para assistir aos telejornais em busca de boas notícias sobre as previsões meteorológicas. Arrepende-se até de um dia ter chamado de mau tempo aquele cujo pecado maior era mandar chuva, instrução do todo poderoso que nos fez um tanto líquidos, e que talvez esteja agora mangando de nós.
Chove no sul e no norte. Nordeste é seco desde tempos imemoriais, o que há de se fazer? Mas o pior é que centro-oeste e sudeste já começam a se conformar com a secura da era moderna, e seus habitantes já pensam mesmo em criar movimento migratório em busca do bem mais precioso, quem sabe lá pelos lados dos pampas. Apesar de que, sobra água na floresta, e não é de hoje! Superlotaremos, pois, qualquer região privilegiada pelas tormentas. A população desses lugares não há de se agradar com isso. Paciência! Sabem que nossa soberba família paulista é numerosa, metida e habituada ao conforto que o dinheiro proporciona, embora lhe frustre a ideia de não poder comprar chuva.
E como entristece imaginar nossas casas, negócios, repartições públicas, tudo entregue de bandeja ao sol e aos tais ventos que sopram de cima para baixo, como tenho aprendido com a TV! Zona de convergência, de pressão, disto e daquilo, muita, mas muita papagaiada técnica tem saturado meus ouvidos que só querem saber quando é que ela vem de vez.
E os olhos não despregam do televisor, ansiosos pela boa nova pluviométrica, mas tudo o que o apresentador traz são os acontecimentos recentes e não tão recentes do bendito futebol. Só para chatear. Logicamente que se o apresenta é porque plateia tem para lhe fazer subir a pontuação da audiência e aumentar o seu cachê frente ao patrocinador pão-duro, o que é bastante razoável. Mas cadê a chuva? O que o telespectador quer neste momento é previsão de cinco em cinco minutos, é passar as horas olhando para o céu em busca de nuvens que alimentem seus anseios aquíferos. Bolas para o time que será rebaixado!
Hoje o tempo virou e há uma euforia de copa do mundo no ar! Mas a meteorologia avisa que os milímetros que vêm aí só servirão para fazer crescer grama no fundo da represa. Não importa! Que venha! É preciso que ela se acostume a cair novamente em solo bandeirante! Resgatemos, pois, a São Paulo da garoa, ou melhor dizendo, da chuva!
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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