TERRA FESTEIRA

Era uma vez uma terra encantada onde havia um povo que muito se entregava ao labor, embora também muito festejasse. Havia festa para dar e vender. Tudo era motivo para celebrar. Fosse com churrasco na laje ou com caviar na mansão, as pessoas adoravam festejar.

Com a prática adquiriu, aquela gente, fino gosto, e as comemorações passaram a ter um sabor cada vez mais requintado. E porque não admitia que virasse rotina a maneira de se festejar qualquer coisa, buscou criar e aperfeiçoar os métodos de se cair na farra. É preciso inovar sempre – bandeira que o povo festeiro defendia com unhas e dentes.

Tanto inovou este povo, que muitos tipos de festa surgiram com o passar do tempo. Diversificou mesmo o jeitão de produzir felicidade. Descobriu até que roubar o semelhante a mão armada era deleite que não tinha tamanho. Dava gosto ver preenchido de alegria o espírito, com a apropriação indébita de objeto alheio! Promovia, então, muitos assaltos que também foram aperfeiçoados, ganhando mais velocidade e eficácia. Uns assaltavam a pé, outros de carro, de moto, de bicicleta, com a cara lavada ou encapuzado… Enfim, uma variedade de maneiras de se fazer da festa a melhor!

E tanto se buscou a perfeição que acabou por se produzir ali uma gama cada vez maior de espetáculos. Aliás, um tipo que fez sucesso desde que surgiu é o estelionato, jeito cara de pau de se fazer festa. Em seguida vieram suborno e propina, formas variadas de festejar o dinheirinho bom e fácil na conta que engordava a olhos vistos.

Os anos vieram e novas festinhas foram aparecendo para a felicidade daqueles que as produziam. Festinhas que surgiram com a modernidade imposta pela internet, pelo celular, caixas automáticos de bancos e, imagine, os cartões! Estes, sempre clonados. Clone, aliás, termo criado, parece que exclusivamente para aquela nação dos sonhos que não deixou de crescer e de fazer festa.

E a tecnologia também não parou de evoluir. Criou, pois, naquele cenário estupendo um jeitão novo de enriquecer pessoas formadas em medicina e que exerciam a profissão para a qual receberam licença por meio de um valioso canudo. Descobriram, estes arlequins, uma maneira de faturar um extra a partir de comissões recebidas de fabricantes de materiais diversos que eram implantados, às vezes à revelia, em seres humanos que não tinham o que comemorar e que talvez necessitassem desta parafernália tecnológica para continuar vivendo, andando, movimentando o corpo. A partir daí, teve início um sem fim de cirurgias necessárias e desnecessárias para implantar no pobre enfermo objetos nem sempre adequados ao bom funcionamento do seu organismo. Produtos sempre muito caros, com preços muito acima do seu valor real. Criatividade festeira sem par, não é mesmo?!

Foi assim que o idioma da nação, como ocorre em qualquer cultura, sofreu alterações. Novos termos lhe foram incorporados em função de uma variedade cada vez maior de festança. Criou-se, inclusive, nesta terra esplendida e formosa, a palavra “superfaturado”, que serve para designar o preço cobrado por algo, bem ou serviço, muito acima do que realmente vale. Recurso utilizado com certa regularidade por empresas que executavam obras para os governos daquela terra feliz. Gente que praticava o método muito antes da invenção do termo, propriamente dito. Sempre com a anuência dos políticos eleitos pelo voto popular para gerir a coisa pública, e que festejavam como ninguém.

Diretores de pequenas e grandes empresas e departamentos governamentais também estavam sempre a sorrir e comemorar.

Imagine que lá até os guardadores de carros nas ruas, que não guardavam nada, festejavam à custa do que vinha estacionar e tomava um susto com o preço cobrado por serviço nenhum.

É… E pensar que tem gente má que deseja acabar com a festa naquele alegre terreiro! Onde já se viu?!

PROF.RODOLFO DE SOUZA

Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

Acima ↑