Há mesmo muito de preocupante nesta sombria atualidade, cotidiano de quem pula cedo para o pão batalhar. Uma única olhadinha no jornal é suficiente para se perder a paz com notícias e mais notícias que fomentam o desânimo. À nossa volta também é possível perceber movimentos estranhos e olhar de soslaio de quem desconfia até da própria sombra. Por toda parte, a violência, de tocaia, espreita e aguarda o que vem distraído e que, sem dúvida, passará bem perto da sua enorme garganta. É o crime em todas as suas facetas, roubando das pessoas o direito à vida, à dignidade. Com arma, sem arma, com gravata, de avental branco… De roupagens e métodos variados se reveste, enfim, a brutalidade neste país de faz de conta. O povo, coitado, já não a enxerga mais. De tão comum, o coisa ruim ficou invisível. Talvez por isso o conformismo já tenha se tornado, tal qual samba e futebol, parte da cultura dessa gente que tudo que sabe é que a situação vai mal.
Mas e a esperança de uma vida melhor, onde foi parar? Onde foi parar a boa e velha fé no país do futuro? Certamente que se concentra nas mãos e nos ideais das novas gerações que aí estão, quem sabe, resplandecendo de mentalidade nova, repletas mesmo de ideias frescas, e prontas para dar um basta neste conformismo mórbido, calosidade dura que enrijeceu o espírito pobre desta imensa população!
Mas o calor, a mosca zumbindo, o vento leve do ventilador tocando o papel, a mesmice… A extrema dificuldade para colocar em movimento o cérebro de pouca idade e pouca vontade… Só de pensar em tudo isso, dá uma preguiça!
Estado de apatia, cantado em prosa e em verso numa determinada região desta imensa pátria, é fenômeno que já se faz notar no imenso universo juvenil! Trata-se, afinal, de um mofo que, silenciosamente, veio se instalando no gene da garotada, geração a geração, até se materializar no bolor que contamina o pão e que o olhar míope não enxerga muito bem.
Levas de criaturas sonolentas, assim, passam a ocupar as carteiras escolares com a finalidade, veja bem sonolento leitor, de estudar! Logicamente que este anseio papai e mamãe cultivaram desde que o rebento deu os primeiros passos em direção à escola. É preciso, filhinho, tirar proveito deste privilégio e crescer!
Entretanto, a frustração, que é dona do espetáculo, providenciou-lhes uma prole despojada de tão nobre ideal, e que deixa a casa diariamente, rumo à unidade escolar, só para o convívio social e a diversão que dele advém. Sempre alegre, é ágil, fala alto, ri às gargalhadas pelas mais torpes atitudes… Só se chateia quando é compelida a deitar mão nos livros. Então, boceja, derruba a pestana até o meio dos olhos, deixa cair pesada a cabeça sobre um dos braços e dorme. Dorme diante do professor e seu, só seu assunto. Faz do livro, inclusive, confortável travesseiro.
Mas se assim é, o que será do meu e do seu Brasil, leitor? Ora, levas bem mais espertas de jovens de outrora que se tornaram adultos num tempo em que ainda se cultivava seriedade nesta horta verde-amarela, permitiram que a bandalheira tomasse conta da situação. Imagine o que será deste circo daqui para frente!
Desculpe despontá-lo, amigo, mas eu cultivo estreita ligação com o ensino desta terra e, portanto, sei onde está cerne desta preguiça toda.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
Deixe um comentário