O rapaz de pouco mais de vinte anos, trabalhava no setor de frutas do mercado. Dedicado, procurava manter abastecidas as bancas para que a freguesa pudesse escolher, em meio à grande variedade, sempre produtos fresquinhos. Cuidava de tudo como se aquilo fosse seu e preocupava-se em nunca deixar nada podre ou passado, só mercadoria boa. Dizia que era preciso estar de olho. Ganhou, inclusive, a simpatia da dona de casa que escolhia comprar ali justamente por causa da dedicação do profissional. Orgulhoso, tocava sua função com seriedade para que tudo corresse bem naquele que era o seu espaço, o local que ele comandava com carinho. Formação acadêmica não tinha, tampouco chegara a esquentar um banco escolar. Sua parca leitura fazia dele homem de personalidade até rude, embora boa praça.
Era de fato moço bom e esforçado, e parte do salário deixava lá no banco como forma de ter algo no futuro quando pretendesse conduzir a namorada ao altar. Afinal, ela não ia querer esperar por muito tempo. Sabe como são as mulheres, sempre têm mais pressa quando o assunto é casamento. Até mesmo por ser doméstica, haveria ela de dar ótima esposa e mãe cuidadosa. Entusiasmado, ele já sonhava com o aconchego do lar depois daquele dia duro de batente pesado. Podia até sentir o cheiro da comida boa no fim de noite.
De qualquer forma, era cedo para pensar em núpcias e enquanto esperava a oportunidade para o enforcamento o jeito era tomar umas e outras com os amigos lá no boteco do Vieira. Justamente para onde se dirigiu na noite de sexta, dia de celebrar o final de semana com aquela gelada. Não que tivesse fim de semana. Trabalhava no comércio e sua folga raramente caía num sábado ou domingo. Mesmo assim, o dia é consagrado à cerveja e a noite quente pedia algumas e também aquela conversa descontraída com rodadas de bilhar.
Gargalhadas e zombarias, pois, deram o tom de alegria e descontração lá no bar, até que, lá pelas tantas, a moto dobrou a esquina e encheu o local de um silêncio gélido. Parece até que os amigos pressentiram o mal que se aproximava. Era o medo, oriundo dos recentes acontecimentos, estampado agora em cada olhar. E a contramão da vida mais uma vez acabou com o sorriso, com o sonho, quando os disparos derrubaram um após outro. O homem do mercado, sem acreditar no que seus olhos e ouvidos revelavam, sentiu dor intensa e profunda pelo corpo. Frio e terror inexplicáveis apoderaram-se dele quando suas pernas pareceram não mais querer sustentar o corpo forte, e sua vista se recusava a enxergar. Tudo em segundos. Tombou com o nome da garota ainda nos lábios.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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