Enquanto o cavalo relincha, o jumento orneia. Termo um tanto desconhecido este que, pela falta de uso, deve até deixar o dicionário, qualquer dia destes. Afinal, quem se lembra de que um burro, jegue ou qualquer um da espécie, tenha lá sua voz? Mas tem. E quando bota a boca no trombone, é para se fazer ouvir. Claro que moradores de áreas urbanas, sobretudo, dos grandes centros, por serem incapazes de perceber a diferença entre este e os demais de quatro patas, sequer se lembram de que ele fala. Fala, obviamente, a sua língua, principalmente em ocasiões em que é preciso dar um basta na aporrinhação.
Digo isto por ter vivido, numa pequena cidade, experiência em que um burrico, designação que lhe atribui pelo seu tamanho, me fez refletir sobre o fato de ser dotado, também o animal, de certo limite para a sua paciência, da mesma forma que um ser humano de maturidade e entendimento consideráveis tem para com determinadas irritações que são verdadeiras dermatites na fina pele que reveste a inteligência.
Encontrava-me, assim, como mero expectador do sentimento de indignação do bicho que fez valer o poder de sua garganta para espantar a presença incômoda que, ao que tudo indica, alcançou o seu apogeu no momento em que transformou-se em mosca na sopa alheia.
Era noite e o animal pastava sossegado no terreno baldio, próximo ao colégio de onde alguém, que eu esperava, sairia em instantes para correr ao meu encontro.
Concentrado no suculento matinho que os dentes fortes arrancavam do solo, ele sequer tomara conhecimento do meu olhar observador, o olhar sempre atento ao pitoresco que o cotidiano costuma ter de melhor. Expectativa, inclusive, de que o inusitado viesse a brindar-me ainda com mais inspiração.
Percebi, então, que duas adolescentes, estudantes, alunas ou somente gente que vai todos os dias ao colégio, pararam para uma conversinha animada de meninas na flor da idade. Estavam na esquina da rua, bem próximas ao jegue, sem notá-lo. A mesma atenção, aliás, conferida cotidianamente ao professor. O papo, pois, seguia animado e havia mesmo um clima de euforia proveniente de uma fofoca qualquer, envolvendo meninos. Nem é preciso ter o ouvido afiado para se saber o teor do assunto.
O burrinho seguia determinado na degustação de seu prato predileto e suas orelhas movimentavam-se como se fossem antenas captando todo o sinal que lhes chegavam em ondas sonoras de intensidade tal que já beiravam o insuportável. Sem contar que, para potencializar ainda mais a chateação, havia um atropelo na conversa, uma querendo falar mais do que a outra, com as carinhas bem próximas e gestos convulsivos de braços e mãos. Bem próprio de jovens discutindo banalidades. Eu olhava a cena, pensando em algo para escrever que levasse um pouco de graça ao leitor, traçando um paralelo ou fazendo uma analogia, ou qualquer coisa que o valha, entre o bicho pastando e as meninas falando. Eu só não esperava que fosse brotar daquela cena o improvável, o insólito. Até porque, não imaginava que algo pudesse detê-las na sua conversa.
Em dado momento, porém, o fragor do diálogo acabou por tirar do sério o burrico que, sem a menor cerimônia, levantou a cabeça, dirigiu o olhar às doces criaturas estranhas, ali tão próximas, e botou a boca no trombone. O som que se seguiu foi aquele orneio alto e gratificante para ele e para mim. Uma verdadeira catarse, creio eu, que resultou no grito horrorizado de ambas que correram assustadas do local.
E o animal, tranquilo, voltou ao seu jantar.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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