Pedir uma pizza de calabresa com a descabida intenção de solicitar ao atendente que caprichasse na cebola, foi gesto um tanto comum em tempos idos. Em dias atuais, contudo, esse costume vem perdendo lugar para o bom senso que manda conter os ânimos e buscar a cebola que se encontra guardada, quietinha, na prateleira doméstica, caso sinta corroer-lhe a alma o ultraje de ter de se contentar com os fiapos que vieram na sua pizza. A vida dura com o dinheiro curto é mesmo assim, tende a obrigar o comilão a ter bons modos e adotar novo comportamento se, de alguma forma, lhe for importante continuar cultivando a amizade com o dono da pizzaria.
Porque seu preço foi parar lá na estratosfera, a cebola, protagonista desta história, tornou-se, sem dúvida, o vilão responsável pela cara de poucos amigos daquele que recebe o pedido e é forçado a sorrir um sorriso amarelo para não perder o cliente, fingir que caprichará e ainda lhe dizer que volte sempre. E justamente por custar o olho da cara, tornou-se sem gosto, propensa até a provocar indigestão a quantidade a mais que teria sido colocada no seu disco. Motivo suficiente para se entender e aceitar que atualmente não é de bom tom solicitar que se coloque um bocadinho mais de cebola em prato qualquer.
Outro dia, depois de longa conversa a fim de se colocar a pizza em pratos limpos, deliberamos pela mussarela que nos pareceu mais econômica, considerando ainda o consolo de se tratar de outra campeã de audiência. Ao apanhá-la, porém, escorreguei no molho ao indagar junto ao pizzaiolo sobre a presença um tanto escassa do tomate que um dia habitou soberano a superfície daquele queijo todo. Era, pois sim, acessório indispensável e farto neste prato que agora vem provido de uma ou outra rodelinha da fruta, cujo preço também disparou no mercado. Onde já se viu?
Obstinado, porém, não me rendi a tanta chateação, nem perdi a fome por causa dela. Decidi, pois, novamente, consultar as bases do partido que votou mais uma vez pela mudança de sabor, sendo a portuguesa considerada alternativa preferida da militância.
Corri, então, afoito à pizzaria. Carregado, entretanto, com todo o entusiasmo que da fome provém e que não nos deixa pensar, cometi o desatino de solicitar que o profissional do forno fosse educado e caprichasse, imagine, amigo leitor, no ovo. Mais uma gafe cometida em curto espaço de tempo fez com que eu desse com os burros n’água ao ver a cara feia do outro que pensou que eu mangava de sua pessoa. E assim, chamuscado pelo clima constrangedor que esquentou os céus do lugar como se fosse lenha no fogo, nem me atrevi a pensar em outra que levasse brócolis, por exemplo.
Mas determinado que sou e amante inveterado dos prazeres da carne, insisti na pizza, uma doce, desta vez,que haveria de servir como sobremesa do bom e velho arroz com feijão, comidinha singela e um tanto mais econômica, a despeito do precinho nada atraente do carioca, diga-se de passagem.
Conclui, todavia, que não fora lá muito feliz na escolha ao optar pela de banana. Não pude deixar de lembrar, inclusive, da velha máxima que tratava como sendo comercializados a preço de banana, artigos mais em conta. Tempos idos em que comer o trivial era comer o mais barato. Hoje não há trivial!
Cheguei a pensar em outra delícia pela qual eu, como qualquer habitante deste planeta, nutro enorme apreço: a batata. Ainda que não saiba da existência de pizza de batata, dissuadi-me, desde logo, da ideia de colocá-la na minha mesa. Arrumaria, por sinal, mais encrenca com a pizzaria se pedisse para caprichar.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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