VIDAS GIRATÓRIAS

Houve um tempo em que o cidadão dirigia-se ao banco para movimentar a conta bancária, honrar as prestações, pedir um estrato para conferir o orçamento apertado, um empréstimo, saldo, essas coisas. Como hoje, entrar e sair de agências era um tanto corriqueiro, como corriqueiro era se deparar com a incômoda presença de outro correntista que ao invés de usar cheque para sacar, sacava logo uma arma, normalmente de grosso calibre, que apontava para a cara do gerente, do caixa ou atendente, exigindo a grana que ali estivesse, fosse no cofre, na gaveta ou no bolso. Tudo ao seu alcance, sem perda de tempo! Silenciosamente, então, o cliente, seguindo as instruções, depositava no piso frio o rosto repleto de medo cinematográfico, enquanto a curriola deitava e rolava no dinheiro fácil. A polícia aparecia depois, bem depois.

O noticiário de todos os dias relatava um sem fim de assaltos a bancos. Era a paranóia a tirar o sono de quem necessitava dos seus serviços, assim como se apoderava daquele que tivera a carteira assinada pelo banqueiro e que marcava seu ponto diariamente para receber o provento ao final do mês, em troca de seu trabalho que consistia em lidar com papéis e dinheiro, muito dinheiro, alheio. E o serviço sob a mira de uma arma não era, definitivamente, tarefa das mais prazerosas.

Então, para se dar um basta nessa anarquia fora da lei (porque dentro dela pode), alguém teve a ideia de instalar nos bancos portas giratórias inteligentes o suficiente para perceber quando há alguém adentrando o recinto com um objeto metálico e impedir sua entrada, travando e deixando de rodar. Muito eficiente, considerando que armas normalmente são feitas de metal.

A vida tornou-se, daí para frente, bem mais confortável, uma vez que a bandidagem passou a dirigir a sua atenção para os inúmeros caixas eletrônicos fora dos bancos e espalhados pelas cidades. Resolveu, o meliante, o seu problema logístico, se especializando em técnicas avançadas para explodi-los com bombas que só ele pode comprar. Tudo na calada da noite e ainda sem a chateação de ter de conviver com o olhar assustado do insuportável que tenta levar a vidinha honestamente.

Sem dúvida, as agências tornaram-se mais seguras. A porta giratória, de fato, funciona! De temperamento nada carismático, ela trava na presença de metais ou qualquer outra coisa que o seu entender de porta julgar suspeito. De marca-passos a pernas mecânicas, botinas com bicos de aço, celulares, molho de chaves, aparelho de surdez, dentadura… Tudo passa pelo seu crivo. E se ela cismar com a cara do correntista e travar, este é obrigado a dar aqueles passinhos irritantes para trás, para antes da faixa, e só então retomar a caminhada, não se esquecendo de deixar na caixinha os pertences, que imagina, estejam atrapalhando a entrada. É aporrinhação que não acaba, embora não se abale o sujeito, consciente de que todo esse aparato trabalha para a sua segurança. Por isso, vai e volta, dá meia volta, reza, faz promessa e não se deixa intimidar. Dribla os nervos, fica eufórico e comemora quando consegue fazer a travessia. Tudo pelo seu bem.

Logicamente que bandido deixou de efetuar seus saques em agências. Só o correntista tem sofrido percalços ao se deparar com as manias desta máquina neurótica, aborrecimento para ninguém botar defeito. Outro dia, por exemplo, uma destas portas malucas confundiu o andador de uma idosa com um fuzil AR-15. A pobre teve que abrir mão do instrumento e capengar para dentro do banco. Onde já se viu?!

Em outra situação, uma senhorinha, nervosa por ter tirado até a peruca sem conseguir entrar, perdeu a compostura e retirou também a roupa. Sacanagem!

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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