A QUESTÃO HUMANA

Não tenho a pretensão de entender o insólito, o inexplicável, o improvável. Inquieta-me, contudo, a questão humana que dispõe somente de um fio tênue como sustentáculo na perigosa gravidade deste plano.Jamais pensara com seriedade sobre o assunto. Mente jovem não costuma dar muita importância às coisas relacionadas àquilo que viaja na contramão da vida. Soa mórbido, de mau gosto até, passível de esquecimento.

Antes do ocorrido, antes do sinistro que ora perturba a minha cabeça… Cabeça? Não a tenho mais! Tudo o que existe é a minha consciência que tomou ciência de sua nova condição, da solidão recém inaugurada que lhe causa espanto e um quê de ansiedade, cuja origem não consigo definir muito bem.

Vejo ali os profissionais do rescaldo, gente viva e inteira debaixo de chuva fria, tocando com naturalidade o seu trabalho de coletar o que de orgânico restou do voo. Justamente o meu voo. Claro, por que o meu? – é a pergunta que qualquer um faria. Eu que só tenho vinte e poucos anos, ou tinha, não sei, e vinha desempenhando com eficiência o meu papel de acompanhar e fotografar homem importante, político cheio de prestígio, candidato que encerrou sua campanha se espatifando como eu e os demais colegas dentro da coisa que fora construída, a princípio, para voar. Diacho! Pássaro não cai, por que avião tem de cair?

Acompanho de perto, e o que restou de nossos corpos vai sendo colocado em sacos pretos, destes de lixo, bem diante dos meus olhos não carnais, incrédulos. Assisto aos homens, de um lugar onde não é possível sentir a desolação e o aconchego que a garoa e a friagem da noite proporcionam. Mesmo assim, é gelado aqui. Bate um frio estranho, diferente, exclusivo de quem não tem mais pele, imagino.

Um punhado de fragmentos, pois, destituídos de personalidade, é tudo o que sobrou e agora é objeto de interesse daqueles catadores de restos mortais.

Os pedaços calcinados estão sendo amontoados aqui e separados ali depois de devidamente identificados. Tarefa nada fácil – creio eu. Suponho que, em seguida, serão colocados, de forma desordenada, dentro de caixão qualquer e entregues às famílias.

Qual daquelas partes, afinal, hospedou meu espírito, horas atrás? Nada reconheço. Não me reconheço.

Olhos etéreos consternados procuram. Como se pretendesse ajudá-los, eu vasculho o terreno.

Súbito, algo acena com seu brilho que a água e os holofotes realçam. Está logo ali. Mas não posso tocá-la. É cara e parece em bom estado!

— Alguém, por favor, pegue a minha lente! Não posso apanhá-la! É preciosa, é ferramenta do meu trabalho!

O que digo? Terei enlouquecido? Não me ouvem. Essa gente que recolhe partes do que fui momentos atrás, não me ouve. Dedica toda sua atenção a carnes, ossos e dentes sem vida, e ignoram-me aqui. Como podem? Parece até que não estou presente. Talvez não esteja mesmo.

O sargento quase pisa na minha lente. Dói-me vê-la no chão, na chuva, praticamente sob as botas do sargento. Mas ele não pisa. Abaixa, pega e examina. Que gesto natural e delicado!

Mas o que importa? Não é mais a minha lente, embora tenha por ela um bocado de consideração, já que, através de seu olho mágico, eu espiei o mundo e seus flagrantes ela registrou com bastante competência.

E daí? Agora não mais me serve.

Mesmo assim, curvo-me a ela e à humanidade que a inventou. Bendita tecnologia! A mesma que criou e aperfeiçoou o avião.

Sigo o meu caminho.

 

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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