A conversa que não deixa a pauta das discussões e está na boca do povo e dos meios jornalísticos nesta segunda década do século vigente é, por certo, a escassez de água que começa a apertar o calo dessa população. Sobretudo, da soberba família paulista que, todos imaginavam, fosse influente o bastante para convencer São Pedro de que o país, tendo seca suficiente numa determinada região sua, não necessitava de mais esta presepada. Mas o santo, conhecedor que é dos costumes nacionais e da política brasileira, parece não ter se sensibilizado muito com a causa. Teria dito, afinal, que já passa da hora de se parar com a gastança e dos governantes tomarem vergonha na cara. A população até que vem fazendo a sua parte, mas está convencida também de que vergonha na cara é produto mais do que escasso neste momento de escassez.
E o bafafá segue, pois, acalorado e só perde em atenção para o bicho devorador de dinheiro público, campeão de audiência nas mídias. Ainda que esteja meio gasta esta história, objeto de saturação da paciência do cidadão comum que começa a desconfiar de que o animal é bem mais graúdo do que sempre imaginou e que tentar combatê-lo é o mesmo que enfiar a cabeça na boca de um enorme jacaré e acreditar na sua promessa de que não a fechará.
Mais interessante, contudo, é o assunto sobre o qual pretendo me estender aqui neste espaço e que diz respeito a uma solução que veio mesmo para dar cabo da secura, fazendo chover novamente em lugares onde a chuva não tem dado as caras ultimamente. Claro que, ao que tudo indica, privilegiará somente futuras gerações, uma vez que será necessário, além de boa vontade, tempo para se colocar o projeto em andamento e vê-lo concluído. Trata-se, enfim, de uma descoberta surpreendente que veio para acabar de vez com a estiagem, principalmente nas cercanias dos reservatórios de onde o precioso líquido escorre para as nossas torneiras.
Assim, depois de séculos de devastação, alguém finalmente cismou de revelar que árvores produzem vapor de água que é jogado na atmosfera e que, pelo milagre da condensação, é transformado em doce precipitação pluviométrica, comentário que levou outra pessoa a sugerir que se forem plantados alguns milhões de mudas em locais de onde um dia foram arrancadas, dentro de pouco tempo (considerando as eras geológicas), teremos chuva e represa cheia. Logicamente que é preciso que você, amigo leitor, tenha um pouco de paciência ou somente quinze aninhos de idade para sonhar com isso.
Convenhamos, todavia, que a ideia é boa, embora vista com maus olhos por aquele segmento da população que enriquece à custa da derrubada desenfreada de florestas. Diga-se de passagem, governo entra, governo sai e a motosserra prossegue engolindo intrépida as matas, bem debaixo dos olhos míopes das autoridades que se apoiam na desculpa esfarrapada de que é difícil fiscalizar tão vasto território. Bobinhos, não sabem que é só contratar um repórter de qualquer televisão e pronto, a denúncia é imediata, com direito a meliante entrevistado e tudo. Claro que ninguém está ali para uma investigação meticulosa. Correria, certamente, o risco de encontrar peixe maior e o caso daria origem a outra denominação, voltando as atenções do mundo para o garboso madeirão. Quanto ao petrolão, iria para debaixo do tapete.
Resta-nos, portanto, diante da descoberta mais fenomenal do que saber que há água em Marte, pensar em um meio de se plantar árvores no mesmo ritmo em que são derrubadas.
Admito que soa desanimador.
Chego a pensar até que Stephen Hawking está coberto de razão quando diz que a humanidade terá que procurar outro cafofo para viver, porque este aqui…
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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