No meu tempo, quando papai dirigia a um filho o olhar arregalado e inquisidor, este se punha logo a refletir, cheio de medo, acerca do seu comportamento de segundos antes. Começava ali o martírio do santo, que consistia em descobrir qual fora a gafe cometida, até porque nem sempre compreendia com exatidão o equívoco, o crime inafiançável que servira para enfurecer o velho. Mesmo assim, era preciso tentar se livrar da saia justa em que se metera, ainda que não soubesse como. E tudo isso com muito cuidado para que a visita não percebesse, claro. Visita, aliás, era o que não faltava, razão pela qual o pai só olhava, porque, do contrário, tirava rápido o chinelo e o estalava no lombo do incauto, o distraído que normalmente desconhecia em que momento da história praticara o delito, a falta que o conduzira aos rigores da chibata.
Mamãe era, como toda mãe, mais afeita a uma boa conversa, com certeza método menos humilhante e dolorido, embora se saiba que o fio da navalha de que se valem as palavras, também costuma causar ferimentos profundos, difíceis de cicatrizar. Mas as de mamãe, estas nunca feriam. Eram bem mais suaves que o chinelo e a cinta que papai, volta e meia, substituía pelo bom e velho cordão de ferro que, desgraçadamente naquele tempo, soltava-se do aparelho. Era peça avulsa.
Os pecados, então, pequenas travessuras que ficariam no mesmo chinelo, se comparadas às faltas cometidas em dias atuais, eram tratadas com severidade para que tais ímpetos jamais tornassem à mente ardilosa que meninos de todas as épocas carregam e que outrora eram contidos pela força do reio.
O trabalho também começava cedo, pois, no entendimento do chefe da família, filho marmanjo em casa era sinal de vadiagem que não devia ser tratada com condescendência.
Destaque para o fato de que o método ortodoxo de ensinar boas maneiras aos filhos, era costume nas gerações passadas, e deixaram marcas que se transformaram em história para ser contada para a juventude atual, esta mocidade um tanto descomprometida com a boa educação que é a verdadeira substância do crescimento.
Anos dourados aqueles em que a intolerância gerava punição necessária para exemplar, jeito todo especial de falar do qual se servia a autoridade paterna, provavelmente como desculpa para a violência, às vezes gratuita, que causava a impressão no filho de que este fora concebido só para o castigo e deleite de papai, orgulhoso homem durão que sabia manter na linha a molecada.
Mas é preciso dar a mão à palmatória: a força da vara exercitava ensinamentos para a prole de antigamente que aprendia lições de respeito aos mais velhos, às instituições, aos professores, às regras, atributos sem os quais fica difícil viver na sociedade, a mesma que, tão justa e resplandecendo de amor pelos filhos, permitiu que o menino do zoológico alimentasse a fera com o próprio braço. Petulância assistida e autorizada, que no meu tempo não teria vez.
Entretanto, a modernidade está aí e tem criado modismos, dentre os quais, um que determina que o desrespeito, oriundo da complacência, da impunidade e da visão distorcida das coisas do mundo, premie o delinquente com tratamento psicológico. Terapia que me assusta e me enche de tédio.
De repente, bateu uma saudade dos velhos tempos!
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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