Estava no metrô um dia destes quando presenciei uma cena que me despertou a atenção pela sensibilidade como foi conduzida. Afinal, são poucos nesta vida que se dão conta da importância deste mecanismo do qual somos dotados, eu e você. Motivo que também me faz olhar para o ser humano em suas várias facetas, sempre que busco suprir-me de inspiração para produzir um texto como este sobre o qual me debruço agora.
O teor da conversa que se seguiu ao meu lado, ainda na plataforma, chamou-me a atenção porque estavam perto de mim as pessoas de quem emanava um sentimento de proximidade um tanto incomum para dois desconhecidos.
Concordo com você que considera grosseiro bisbilhotar papos alheios. Mas fazer o quê se o destino caprichosamente me colocou ali, bem ao lado das criaturas que viriam a protagonizar esta história. Diga-se de passagem, plataformas e trens normalmente propiciam momentos de intimidade com a vida do outro.
Na verdade, tudo começou com o sujeito de olhar perdido que aguardava a composição. De aparência um tanto comum, surpreendeu-me ao perguntar à moça que se encontrava à sua direita, se as portas do trem que acabara de chegar, já estavam abertas. A pessoa, tão surpresa quanto eu, indicou-lhe a entrada e ainda informou o lugar onde havia um assento disponível. O homem de olhos apagados não usava bengala, o que dificultou um pouco as coisas.
Sentado, puxou logo conversa com a moça que se sentara ao seu lado e que, embora fosse de poucas palavras, já ensaiava algumas para um diálogo que prometia.
— Sabe, não é fácil ser cego.
— Não pensei que fosse. Aliás, seus olhos parecem bem normais.
— É, mas não enxergam nadinha. Sabe lá o que é isso? Experimente fechar os seus… Estão fechados?
— Sim.
— Imagine acordar todas as manhãs, abri-los e ver o que vê agora.
— É. Não deve ser nada fácil.
Com um toque de magia, até meio engraçado era o quadro da jovem de olhos fechados, seguindo as instruções do homem que sequer imaginava a beleza de sua companheira de conversa e de viagem.
— Pense bem, se você fosse cega e seu namorado, mesmo sabendo que não entende inglês, a levasse a um cinema que exibisse um filme legendado. Frustrante, não acha? Ou se ele fosse cego e você o levasse à sua casa para mostrar-lhe a nova TV HD. Triste, não?
— Acho que sim. Não consigo imaginar nada igual.
Aquele lamento chegava aos ouvidos surpresos da moça como um desabafo pungente, um desejo incontido de alguém que gostaria de ter nascido como qualquer outro ali. Pude até perceber no semblante assustado dela, que se passava em seu coração a vontade de tocar-lhe nos olhos e fazê-los enxergar. Mas não podia. Aliás, nem sabia o que dizer. Nunca falara sobre isso com um cego. Sequer havia falado antes com um cego. Fora apanhada de surpresa e agora precisava despedir-se e deixar o assunto a meio caminho. A voz no autofalante anunciava a sua estação, coincidentemente a minha.
Desembarcamos. Havia na moça um sentimento palpável de impotência e culpa por não ter dito adeus ao rapaz. Somente um tchau teria escapado efêmero de sua boca.
Permaneceu por algum tempo parada na plataforma aguardando que fechassem as portas do trem. Se demorassem um pouco mais, quem sabe pudesse dizer um até logo mais terno ao outro. Mas se entrasse novamente, as portas poderiam fechar e ela teria que viajar até a próxima parada. Não podia, estava atrasada. Mas permaneciam abertas e o moço continuava ali, impassível. Pensou em entrar. Deu um passo à frente. Titubeou, relutou até que as portas se fecharam e ela viu o cego seguir o seu destino.
Percebi, então, na leve mordida nos lábios, um coração apertado que haveria de sofrer pelo resto do dia. Mas que depois seguiria também o seu caminho.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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