CRÔNICA ECOLÓGICA

Meu quintal já foi dono de quatro goiabeiras. Uma deitou ao chão para dar lugar à lavanderia, a outra para que pudéssemos construir aquele quartinho indispensável, reservado para guardar todo tipo de material e quinquilharias.

A terceira tombou quando o famigerado lindeiro adquiriu parte de uma viela situada ao lado de nossa propriedade e que tornava nosso terreno bem maior. Muitas plantas tombaram com ela, pelas mãos do novo dono: bananeiras, aboboreira, mamoeiros, flores e a menor das goiabeiras que também sustentava os ramos do maracujá.

A maior, por sorte, ficou dentro do meu território.

Usei, então, de toda autoridade familiar a mim conferida por séculos de domínio macho para, no meio de tanta carnificina vegetal, conseguir preservar a integridade física desta que nascera sem saber, próxima à cozinha de casa. É certo que minha esposa, havia muito, ansiava por derrubá-la, alegando incômodo, sujeira… Enfim, seu machado mental brilhava ameaçador quando passava pela velha árvore, que apesar de grossa e alta era frágil como um bebê e podia tombar em instantes, por “qualquer” dez reais.

Um imponente abacateiro também fez parte daquele pedaço de terra. Caiu como se fosse um ramo de hortelã.

Outras duas laranjeiras tiveram o mesmo destino cruel, dando lugar ao cimento que, quem sabe um dia, volte a ceder espaço às plantas.

Gosto de árvores, embora admita a necessidade de retirá-las quando o terreno é pequeno e a casa é, com certeza, abrigo melhor.

Eu que subira tantas vezes na velha goiabeira, agora relutava ante a insistência de minha mulher que considerava a necessidade de cortar um grande galho que ficara na propriedade vizinha.

Subi, contrariado, na árvore, mesmo assim contente por saber que somente uma pequena parte dela tombaria.

Depois de muita dificuldade em serrá-la, dependurado, decidi, afinal, que seria melhor deixar ali o serrote e descer para solicitar a um amigo da vizinhança que me emprestasse sua escada, bem longa, dessas que se usa para subir em postes.

No começo da descida vi um pequeno toco, resto do que teria sido um galho fino, e este ainda possuía aquela película característica do tronco dessas plantas.

Acostumado a essas aventuras distantes do solo, eu desprezei o excessivo cuidado oferecido pela minha esposa em forma de uma corda e, de sobra, superestimei a resistência do pequeno toco, depositando nele todo o peso do meu corpo, bem diante do olhar apreensivo dela que a tudo assistia.

Despenquei pesado, empreendendo viajem rápida de volta ao solo.

Mais impressionante que a queda, contudo, foi a experiência que vivi na decida. Pus à prova a rapidez com que funciona nossa mente quando, no trajeto, eu tive tempo de pensar no vexame que era cair da árvore, em que tipo de material me esperava no solo, ver o galho cada vez mais distante e, ainda, impressionar-me com o grito de minha mulher que acompanhou-me da partida à chegada.

A trajetória percorrida provocou-me muitas escoriações por bater o corpo aqui e ali o que, certamente, veio a amortecer a pancada recebida quando bati a orelha direita em um bloco de cimento, carinhosamente disposto em local estratégico, por aquela que um dia jurou-me lealdade. Não posso criticá-la, afinal, não sei como seria o impacto sem ele, que tipo de movimento perigoso faria meu pescoço.

O sangue jorrou depois de ter sentido (e ouvido) a chegada de minha cabeça ao bloco e saltado de lado, com violência.

Uma vez de pé, tentava conter o sangue e acalmar meu amor que gritava, temendo pela vida do maridinho que desejou, intimamente, cair todos os dias para receber aquela avalanche de cuidados.

Três pontos na orelha mais uma porção de hematomas, entretanto, não foram suficientes para conter e abalar, um grama sequer, o meu amor pela árvore.

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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