Era uma vez uma câmera, feliz por ter sido instalada pelas mãos hábeis do profissional humano que também lhe dera vida ao ligá-la na tomada. Momento memorável em que deixou o conforto de sua embalagem para ganhar o mundo e descobrir atônita o seu fascínio. É certo que na sua visão de câmera todo esse mundo se resumia àquele ponto alto de uma parede onde fora colocada, mais a distância que seu olho de vidro conseguia alcançar. Mas era excitante! De seu posto podia ver a luz do sol e até sentir o vento. Pois sim, alguém se lembrara de colocar sensação tátil em sua pele metálica! Gente boa! Só não compreendia o porquê das pessoas se protegerem da chuva, tão curiosa e agradável precipitação pluviométrica. Gostava, aliás, desse nome. Talvez até gostasse mais do que de chuva.
Toda a sua ingenuidade cibernética, até então, não lhe permitia compreender que havia mais para despertar sua admiração, assim como muito para desapontá-la. Seus construtores também não pouparam esforços para equipá-la com circuitos sensíveis o bastante para apreciar a vida dos homens, que já considerava um pouco sua, embora viesse a desconfiar, não obstante, que não só de flores era feita esta vida.
Gostava de observar, característica que ganhou tão logo juntaram suas peças. Desconhecia, no entanto, o motivo de serem as pessoas objeto de seu maior interesse. Talvez algo na sua origem determinasse isso. Haveria de descobrir.
Notou ainda que os carros eram máquinas como ela. Só que eram máquinas de rodar. Iam e vinham de diferentes lugares. Sentiu até uma pontinha de inveja, mas consolou-a saber que veículos são construídos para o transporte de objetos e de gente. Câmeras não. Já começava, inclusive, a desconfiar de que o mundo era qualquer coisa maior do que tinha imaginado.
Aprendeu logo que todo tipo de clima poderia ser agradável desde que o frágil equipamento habitasse lugar seguro como o largo telhado debaixo do qual morava, e entendeu que era mesmo preciso se proteger, que aquele novo mundo tinha lá os seus perigos, que até o sol, a chuva, e o vento, tão afáveis, poderiam causar-lhe algum dano físico. Apesar de que estava deslumbrada e duvidava mesmo de que algo pudesse constituir risco à sua saúde. Era eternamente grata por estar ali no meio dos homens, tentando compreender seus movimentos. Claro que aparelho dotado de consciência sabe que entender o ser humano não é função sua. Entretanto, já aprendera muito e amava demais o que aprendera para desprezá-lo.
Só que seu foco era dirigido a uma cerca de aço que seguia na linha da parede, e nela havia um portão. Acostumara-se, pois, a esta imagem. Apesar de que já sonhava com o dia em que recebesse de presente um lindo motor para poder olhar em todas as direções. Por enquanto, contentava-se com a monótona cerca e seu portão.
Ao pensar assim, um largo bocejo de tédio surgiu em sua face eletrônica. Mas este, repentinamente, foi quebrado por dois rapazes que vinham em disparada na direção do portão. O que perseguia portava um objeto desconhecido que utilizara para soprar no que fugia algo parecendo uma fumacinha. Este, ainda aturdido com a coisa, ensaiara uma corrida, caindo no passeio. Então, um líquido vermelho escorreu de seu corpo. Deve ser algum tipo de óleo. Algumas máquinas possuem fluido que faz cessar o seu funcionamento quando esparramado. Assustou-se com esse pensamento e com a ideia de que aquilo poderia significar violência, uma invenção inacreditável conferida ao homem, segundo ouvira falar.
Essa parte, sua jovem inteligência não permitiu que entendesse bem. Se tivesse nascido computador…
De experiência em experiência, contudo, a camerazinha foi construindo o seu aprendizado que devagar a levou a compreender o que se passara naquela cena inusitada da cerca.
Concluiu que talvez o homem não fosse assim tão bom e se encheu de tristeza ao descobrir a razão de estar ali e gostar tanto de espiar as pessoas.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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