AS CRÔNICAS DE ANTIGAMENTE

Já não se escreve crônicas como antigamente. Os especialistas em literatura, a quem compete tecer comentários a respeito de assuntos literários, dizem que o jeito de escrevê-las é que mudou. Está um tanto atualizado, com a cara deste mundo em que vivemos. Nesse aspecto, penso até que têm razão. Entretanto, olhando a coisa do ponto de vista de quem é apreciador de um texto bem elaborado, em que o autor se serve da farta mesa de recursos linguísticos da qual é dono este nosso rico idioma, chego a duvidar do bom gosto deste novo modernismo.

De fato a precariedade literária que tenho presenciado nas prateleiras das livrarias, tornou-se, nesta época, elemento preponderante na elaboração de trabalhos que antes eram considerados obras de arte e que hoje fatalmente se deixaram contaminar pelos costumes da atualidade em que as atenções estão voltadas para o fútil e o banal. Tempos modernos e apressados que fizeram da informática e da internet seus santos de devoção que lhes ditam as regras quando o assunto é criar, sobretudo, arte. Percebo que falta tempo para a sensibilidade e para a criatividade. A propósito, há pressa para escrever, o que denota falta de cuidado, tão necessário quando se pretende dar asas à imaginação e à forma como tudo chegará aos olhos e ao entendimento de quem lê.

Falo assim, cheio de rancor, justamente porque leio. Leio de tudo, inclusive, crônicas e, argumentos não me faltam para reclamar a falta que faz Rubem Braga, Fernando Sabino e Drummond. Quando é que teremos novamente uma literatura repleta do talento que tanto nos encantou tempos atrás? Tempos em que a palavra tinha valor e era usada como instrumento para transmitir emoções.

Tenho notado, pois sim, que os cronistas de hoje produzem suas obras imbuídos do dever de sempre criar textos cômicos. Como se os vissem só assim. E virou fórmula de sucesso produzir historinhas engraçadas, nada comprometidas com a ideia de crônica. São, afinal, contos inventados para divertir. É o que basta!

Na verdade, crônica é, ou deveria ser, um texto que fala do dia a dia, que transforma cenas aparentemente banais em verdadeiras obras literárias. Às vezes hilárias, por que não? Mas que nunca se esquecem de privilegiar o senso de que se vale o autor para fotografar a cena que só ele teve a sensibilidade de perceber.

Gosto, pois, da palavra escrita, aquela que traduz com habilidade o sentimento que o artista conseguiu aguçar por causa de uma imagem ou acontecimento que tenha presenciado.

E o leitor, por vezes, se alegra ou se emociona por descobrir nas palavras a oportunidade de enxergar aquilo que seus olhos não viram ou simplesmente deixaram de notar.

É o talento que faz do escritor um construtor de textos leves e redondos que levam o prazer a quem os lê.

Cabe, pois, ao leitor destes novos tempos, apreciar a arte criada a partir da banalidade desta vida. Até porque, serve também como pretexto para quem passa a vida valorizando o banal. Por que não?

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

 

 

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