“O que foi que fizemos?” – indaga o coração apertado da menina que não passara ainda dos dez anos de vida. A câmera dos tempos modernos a tudo registra. Não perde nada. Digere o terror para transformá-lo em pontos na audiência. Por meio de seu olhar de vidro, a criança protagoniza a história que conta como ainda não convivera com a paz, por que jamais vira sua face. Sabe que existe, mas não tem ideia da sua aparência.
Transpira revolta, a garota que, não obstante o terror, também aprendera a amar, ingrediente fundamental para dar mais sabor ao caldo do sofrimento. E, naquele instante flagrado, somente reivindica aquilo do qual se considera merecedora, embora não o conheça. Só ouvira falar dele. Por isso, entra em constante conflito consigo mesma, como em conflito tudo permanece em sua pequena existência de destruição, escombros de prédios, de carros, de gente. Condição que lhe assegura não descobrir que a vida é feita de outras possibilidades.
E ela é grata pelo contato nenhum com o mundo externo, com aquele em que as casas ainda estão de pé e as pessoas ainda desfrutam de alguma tranquilidade. Sossego questionado, é verdade, sobretudo em nações que praticam a desigualdade social e a impunidade como forma de privilegiar uns poucos em detrimento da imensa maioria. Talvez porque seja esse o único modelo de governo disponível na sua cartilha de governar.
Mesmo assim, tudo é belo e feliz na terra da bala perdida, do saque, do roubo a mão armada, desarmada, do colarinho, do golpe, de todo o tipo de violência que o povo engole e já considera parte de sua vida.
Quem dera pudesse viver num paraíso como este a menina inconformada, cujo corpo franzino e o espírito jovem custam a acreditar que haja descanso à sombra de alguma árvore. Dizem que no seu país já houve paz um dia. E que tudo ali era muito lindo! Falam, os mais velhos, da beleza do lugar com seus desertos e oásis de palmeiras e água fresca. As relíquias, verdadeiros tesouros da humanidade, também deixaram suas pistas.
Mas alguém arruinou a bela terra por onde caminha determinada a menina. Anda agora com dificuldade em meio ao que restou depois de mais uma chuva de bombas que caiu forte durante a noite. Corriqueira tempestade de aço a ferir as entranhas da cidade e da gente que fez dela berço e morada.
Curiosamente os pedaços de paredes e lajes vão se tornando cada vez menores. A guerra se encarrega de moer partes do amontoado de pedras que um dia foram edifícios.
E a jovem, mais uma vez, testemunha o horror. Observa, consternada, o choro solitário do homem sentado sobre a mistura de tijolos, reboco e ferro retorcido. No seu semblante, da mesma forma retorcido, ela repara na ausência de esperança que há muito se foi. O sangue dos seus e a miséria humana envenenaram seu corpo e agora ameaçam levá-lo à loucura o que, sem dúvida, seria um alívio. Contudo, enquanto a lucidez cruel é companheira assídua, faz do choro um meio de extravasar toda a mágoa que brota do peito.
É provável que não conheça a menina. Até porque, não voltara sua atenção para ela ou para qualquer coisa ao seu redor. São irmãos, entretanto. Irmãos no infortúnio que degradara seu país e suas vidas.
Mas há os que estão no comando da morte. São eles que determinam o destino de todo um povo, o aniquilamento de toda uma cultura. Tudo para que se crie a outra cultura, a do terror. Decidem, assim, quais peças mover no intrincado tabuleiro da guerra, desconfiados, inclusive, de que não haverá vencedores.
Um dos lados desta luta insana, há muito peleja para tomar do déspota o seu cetro. Este se recusa a largá-lo e conta com a ajuda do abominável homem das neves que nem sabe mais por que diabos se metera nisso. Talvez para chatear ou para provocar o gigante que mantém seu único olho voltado para a contenda, cheio de vontade de ficar com as sobras. Oxalá o dendê que se esconde debaixo da terra finalmente venha encher o seu tanque.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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