O ARTEFATO

O artefato é confeccionado por mãos humanas. Mãos que se empenham e, com habilidade, dão consistência e forma àquilo que servirá para propósitos outros que andam na contramão da vida e que, mesmo assim, não pesam um grama na consciência de quem o produz em troca do rico salário que o sustenta respirando. Ainda que não se possa culpar o operário de chão de fábrica por causa disso, já que facilmente se fartaria, se permitido lhe fosse desfrutar do privilégio de dispor de um minguado trabalho de assessoria em casas municipais, estaduais, federais e tais. Se pudesse escolher, por certo, trocaria seu magro pagamento por aquele, abandonando o emprego sem olhar para trás.

Mas é preciso deixar de lado o sonho, porque sonhar em momento em que a fábrica exige dedicação pode ser nocivo ao bom andamento dos trabalhos e, com isso, desgostar o encarregado, o que certamente peão de juízo se esforça para evitar. Afinal, a demanda é grande e o produto, todos sabem, é necessário para que um exercício, pouco salutar para a sobrevivência da raça, encha de entusiasmo o cotidiano de quem o pratica.

Em outro local, trabalhadores também se esmeram na produção de algo, um dispositivo perfeito, talhado com amor para abrigar e conduzir o artefato a um objetivo, a um destino nada humanitário, embora se saiba que aquele também sirva para criar e manter ordenados que compram comida que mantém vivo o homem que produz o artefato e o tal dispositivo. O ser humano, afinal, é mesmo assim, faz uso de diferentes meios para permanecer caminhando por este solo. Paradoxo que obriga, muitas vezes, a cercear a vida do outro em troca da sobrevivência.

Mas o artefato, pobre peça destituída de sensibilidade, não chega a suspeitar disso e de seu papel neste mundo feito de homens e de armas. Tampouco, por qual razão esculpem sua forma cilíndrica e pontiaguda com tanto capricho. O artefato não sabe de nada, nem que ocupará um confortável abrigo de papelão de onde será retirado pela mão humana que o colocará no dispositivo.

Este, então, será acionado por um dedo, instrumento que faz parte da anatomia humana e, por causa do qual, uma outra peça fará explodir o pó que expulsará com ferocidade o artefato, permitindo que siga em paz o seu caminho e cumpra direitinho a sua função de promover a morte.

Todavia, não se pode olhar com maus olhos para este que não é dono de sua vontade. Talvez se o fosse, não partisse rumo ao porta malas do veículo para furá-lo, penetrar suas poltronas, experimentar o gosto do tecido, para, enfim, se alojar nas costas do organismo ainda vivo, logo à frente. Pela afinidade, é possível que ficasse mesmo na lataria.

Mas é para isso que fora fabricado, afinal: partir em direção a um destino desconhecido, para o qual talvez não seguisse se lhe fosse dada a oportunidade de escolha. Depositar-se num organismo que tem outra constituição, orgânica não metálica, é o seu trabalho. Mas por quê? Porque é desejo de alguém que o corpo, destituído de identidade para com o tal, tombe tão inanimado quanto o mesmo, por natureza, seu agressor.

A lataria, o tecido, a matéria sem vida, quando perfurados agridem pela imagem produzida, embora possam ser remendados facilmente. Mas ao organismo humano, cabe morrer quando atingido pelo artefato.

Fica, pois, a dura constatação de que o papel do homem neste mundo é mesmo o de protagonizar a morte, como produtor e como vítima dela.

 

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

 

 

Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

Acima ↑