OLIMPÍADA MUDA A CARA DO REINO

Fala-se por aí que no distante reino olímpico do Ó todos os acontecimentos deixaram de acontecer em função dos jogos. E ainda, que o povo feliz se farta com toda a festa, sobretudo, por saber que o país deixou a crise econômica, pela qual vinha passando, e que todos os demais problemas simplesmente deixaram de ser problemas, preocupados que ficaram em dar passagem aos atletas. E que até na longínqua província potiguar, a respeitada comunidade do crime, em reverência ao evento, procurou conter seus ímpetos incendiários e sossegou. Teria ainda, num gesto tocante, cedido os fogos para o magnífico show pirotécnico da abertura das competições.

Operação lava isso e aquilo também não lava mais nada neste momento, uma vez que em dia de festa ninguém quer se aborrecer e, também, porque os juízes, depois do sétimo dia, resolveram descer do Olimpo para descansar e prestar sua homenagem ao esporte. Que fique de lado, pois, a corrupção política que, neste instante de glória, pouco interessa à população olímpica. Se bem que a vizinhança continua a comentar. Gente faladeira, credo! Nem leva em consideração que até o colarinho branco deixou de se fartar com a patifaria compulsiva e foi para o armário se refestelar com as transmissões que mostram músculos, suores e lágrimas em HD.

Convenhamos, pois, que se trata mesmo de um momento histórico para o distante reino de Ó que, coitado, se habituara a desconfortos sociais, os mais variados, no decorrer dos poucos séculos transcorridos desde que o ilustre atleta de além mar, pela primeira vez, se aventurou por ginásios Tupinambás. É chateação que não acaba. Merece, pois, festa de tal monta essa gente sofrida. Talvez tenham de fato pensado nisso os soberanos quando a promoveram: dar um refresco para a pobre vidinha plebeia. Senão isso, que fiquem para escanteio os verdadeiros motivos.

E, por falar em jogos, contaram ainda que o rei em exercício, muito bom em artes marciais e que experimentou sua habilidade aplicando vigorosa rasteira na rainha, agora, anda por aí esbanjando autoridade, razão pela qual ficou sob sua responsabilidade declarar a abertura oficial dos jogos. Logicamente que se encheu de apreensão. Soube até que esteve lá, quietinho, com cara de árvore, a temer que alguém notasse a sua presença, empunhasse a plaquinha “fora rei” e enchesse o ambiente com aquela canção que lobo adora entoar: UUUUUUUUU!!!

Valha-me Deus! É isso mesmo! O cruel protocolo manda sua alteza proclamar abertos os jogos, amargura que por certo lhe teria trazido um repentino e momentâneo fiapo de arrependimento pelo pecado cometido. O que fazer?

Mas o discurso curtinho fora elaborado com capricho e astúcia, embora meia dúzia de palavras necessárias, segundo disseram, foram suficientes para desencadear o coro, sufocado, claro, pelos fogos, pela música, pelo espetáculo, circunstância que levou o soberano em exercício a respirar aliviado. Tudo fora meticulosamente calculado para que as vozes dos súditos não ferissem os sensíveis ouvidos de sua majestade com uma música que não estava no programa.

Olimpíada, afinal, é isso, festa que tem o poder de fazer parar as respirações, o mundo e o país. Menos as vozes. Serve, sim, para desviar a atenção do súdito desatento. Manobra muito importante para a manutenção da farra sem controle.

Circula por aí, inclusive, o boato de que tramita pelo congresso do reino projeto de lei que visa realizar olimpíada e copa do mundo todo ano em território verde amarelo. Certamente que o chefe em exercício se apressará em sancionar a lei e todo o reino feliz viverá a glória dos esportes para sempre.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

 

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