O MENINO DE ALEPPO

Enquanto o mundo ainda celebra as conquistas olímpicas do último evento, lá na Síria eles continuam a ganhar ouro no tiro. Tiro de morteiro, de fuzil, das bombas que os aviões deixam cair inadvertidamente, tiros que partem da mente insana daquele que insiste na ideia de que o poder lhe fora destinado por obra divina, razão mais do que suficiente para que ninguém tente tomá-lo. E, no momento em que a coisa não funciona assim, com o vento soprando a seu favor,o tirano promove a morte por atacado. Só para mostrar quem manda. Determina ainda a destruição da cultura, dos costumes, da vida de todo um país, arruinados num estalar de seus longos dedos sujos, logo mais, descarnados.

A imagem do menininho sírio sentado na cadeira, que as TVs do mundo se empenharam para divulgar e que na internet brilhou muito também, nada mais é do que uma cusparada na cara da hipocrisia que reina soberana aqui e acolá. Faz de conta que somos bronze, prata ou ouro. Faz de conta que o garoto ali, naquela foto, não é de verdade. Faz de conta que os líderes mundiais se importam e que deixam até cair, volta e meia, uma lagrimazinha de réptil, diante da tela que denuncia a barbárie,com o pequeno sentadinho na cadeira vermelha.

Pena que a cena não dê assim tanto ibope, uma vez que a criança não é americana, tampouco européia. Caso fosse uma coisa ou outra, a indignação geral por certo que teria ofuscado o brilho do ouro e da festa de encerramento das Olimpíadas. Haveria tanto barulho que esquadrilhas e esquadras se poriam a caminho do inferno só para dar cabo dos malvados, indiferentes aos jogos.

Entretanto, o garoto não passa de um ser humano natural de um lugar onde é corriqueiro o assassinato em massa. E, com três anos de experiência na loucura, está tão habituado ao derramamento de sangue que não chorou por causa do susto, da família massacrada, nem pelas paredes desabando sobre sua cabeça. Limitou-se a olhar calado, corpo todo empoeirado, como se nada visse ao seu redor. Incomodava-lhe um pouco o sangue que lhe escorria pelo rosto. Tanto que passou a mão e a limpou na cadeira. Coisa de criança isso de limpar a mão no estofado. Só que em outras partes do mundo elas limpam as mãos de chocolate, alimento que certamente não fora ainda apresentado ao menino de Aleppo.

Houve quem dissesse que o guri se tornou símbolo dessa luta inglória que, tudo indica, só acabará quando não existirem mais habitantes no lugar. Eu, por mim, acredito que não tenha se tornado símbolo de nada. Aqui, em pátria tupinambá, também há milhões de crianças que vivem em situação de guerra.E, tal qual aquele, ninguém olha para elas. Talvez sejam invisíveis, afinal.

De qualquer forma, a cena é tocante. Só não é capaz de tocar o coração de homens que fazem do poder a bandeira, pela qual devem lutar a qualquer preço. Até mesmo da ruína de seu próprio país.

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

 

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