OLHA LÁ O VOVÔ

— Mamãe, olha lá o vovô!

— Não, não é o vovô, filho.

— É sim, mamãe! É ele sim!

— Não é não, filhinho. Venha!

— Mas mamãe, é o vovô, ali naquele carro.

— Já disse que aquele não é o vovô, e não fique aí parado, menino! Venha logo. Olhe, seu pai já vai lá adiante. Vamos.

E o trânsito seguia lento. Algo estaria bloqueando a passagem ou, como de hábito, somente um número excessivo de veículos trafegando pela mesma via, na mesma hora. Provavelmente fosse isso. E eu ali aproveitava o ensejo para trafegar também pelo meu pensamento inquieto, sempre na tocaia para apanhar um fato sobre o qual possa traçar umas poucas linhas, eu que estou sempre rabiscando alguma coisa quando me sobra um tempinho… Como ali onde eu não tinha mesmo o que fazer a não ser esperar.

Desejava, como sempre, que me brotasse um texto leve, cheio da descontração que é ingrediente indispensável na tigela quando a intenção é confeitar uma boa crônica.

Mas atualmente, como me desvencilhar do turbilhão de notícias que chegam a todo instante, querendo boicotar a leveza do meu texto, ou mesmo, carregá-lo com o mau gosto tão peculiar aos relatos de violência?

Por isso, mesmo a contra gosto, divagava, ali naquele lugar, a respeito das vidas ceifadas por causa dos soldados que quiseram tomar o poder, pensando que cochilava o soberano. Também pensava nas dezenas de pessoas esmagadas pelo caminhão e nas outras trituradas no moedor de carne da bandidagem ou da polícia, dia a dia. Pensamentos que ainda me transportavam para outras guerras, as de acolá, que espantam para longe as pessoas que sobrevivem à loucura e à morte. Era, pois, a brutalidade praticada sob todos os disfarces e desculpas possíveis e imagináveis, o assunto que conduzia a minha imaginação. Talvez uma história surgisse se eu considerasse ali a possibilidade de escrever, quem sabe, um drama ou uma tragédia.

E o engarrafamento, fazendo justiça ao seu nome, seguia devagar e me concedia tempo para pensar que tudo isso não terá fim enquanto houver um único ser humano sobre a terra. Desesperança a toda prova.

Aliás, todo esse pessimismo me trouxe à baila a ideia de que me contrapunha a um texto lido recentemente, cujo assunto abordava a necessidade de se evitar pensamentos negativos, uma forma de atrair graças e, com isso, viver uma vida melhor. Falava aquele que é preciso dar as costas para notícias que enchem o espírito de chateação. Não explicou, todavia o autor, como levar adiante tão sublime intento, uma vez que, para vê-lo bem sucedido, é preciso mudar-se para o mato. Não, campo não! Mato! Local inóspito distante, muito distante de qualquer sinal de internet, telefonia, TV, onde não existam bancas de jornais e revistas, nem pessoas portadoras de qualquer tipo de mensagem. O meio do oceano ou um deserto também se configuram boa alternativa para se levar a cabo tal empreitada.

O conflito que se seguiu, então, teve lugar na intimidade da minha mente onde tudo acontece. Indagava-me acerca da veracidade daquelas palavras, porquanto eu precisasse me afastar do tormento que as más notícias carregam.

E não muito longe dali a voz do garotinho, carregada de ternura, me chegava aos ouvidos pouco habituados com a alcunha. Persistia em dizer à mãe que aquele que ali se encontrava era o vovô. Demorou, inclusive, algum tempo até que eu desconfiasse de que aquelas palavras eram dirigidas a mim. Não pude evitar uma gargalhada. Em seguida, antes que o carro da frente avançasse me obrigando a segui-lo, olhei novamente para o pequenino de olhar perplexo, estático no passeio, e acenei alegre. E o sorriso que se abriu, repentinamente, baniu da minha mente todos os pensamentos nefastos, contra os quais travara até ali vã batalha.

Percebi, então, o quanto demorei para descobrir que a tarde estava ensolarada.

 

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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