Instalou-se recentemente numa sala de sexto ano, lá da minha escola, um frenesi, objeto de meu apreço, já que muito me diverte a criatividade quando o assunto é brincadeira. Além, claro, do pitoresco que o quadro sempre oferece e que costumeiramente dá margem a algumas linhas.
Trata-se, afinal, de uma mania que tem abusado da minha paciência enquanto professor, mas que, por outro lado, tem me despertado a atenção como observador que sou do ser humano em seus vários tipos, fascinantes às vezes. Sobretudo, o adolescente ou aquele que aspira adolescer, lindo dentro de seu espírito cheio de cores e brilhos. Irritante, contudo, pelo ímpeto inconsequente dedicado às coisas em derredor. Normalmente as mais fúteis. Se bem que falo de matéria prima sujeita ao molde que o hábil escultor pode, por que não, transformar em arte, valorizando sua raiz, sua liberdade de expressão, seu ponto de vista, preciosa opinião que com alguma constância é capaz de causar perplexidade.
Sei que o amigo leitor já principia roer as unhas, tamanha é a expectativa a que é submetido quando se põe a ler estas palavras.
Ocorre que um desses alunos, diga-se de passagem, o mais quietinho e meigo, lá no aconchego doméstico, dedicado que só vendo a uma brincadeira bastante saudável, bem própria nesta idade, achou de chutar a parede ao invés de optar por uma bola, um tanto mais macia e apropriada. O resultado não podia ter sido outro senão um pé enfaixado e um par de muletas para auxiliá-lo no ir e vir diário. Caminhada precária que, aliás, serviu para alterar a rotina da classe que amou o aparato.
As muletas fizeram mesmo sucesso, tanto sucesso que foi preciso a interferência docente em momentos de contenda na disputa pela oportunidade extasiante de sentir a liberdade e o vento no rosto, dando uma voltinha pela sala com os tais instrumentos debaixo do braço. Situação inusitada que me fez recordar um menino, noutro momento desta conturbada aventura que é o ofício de professor, que teria sentido inveja do coleguinha que percorria o parque em sua cadeira de rodas que alguém empurrava, exclamando com olhos despeitados: Ah! Como seria bom ter uma destas e ser conduzido para lá e para cá sem o menor esforço!
Evidente que nas séries mais avançadas, onde o entendimento galgou um degrau a mais, a rapaziada, mais sábia, desenvolveu o hábito salutar de demarcar território, feito bisões. Já as meninas, estas não abrem mão do estojo de maquiagem e do esmalte. Difícil, nessas horas, é convencê-los de que para que conquistem uma futura posição social que, pelos menos, lhes mantenha em pé a dignidade, é preciso que se comece a estudar de verdade, levando um bocadinho mais a sério o assunto que o professor escolheu a dedo para auxiliá-los na construção do seu conhecimento.
Mas que nada! Ao invés de tocar o seu trabalho, tem o mestre que interceder quando se briga para andar de muletas pela sala, para evitar que causem danos cardíacos uns aos outros se aplicando vigorosos socos no tórax, ou ainda soladas de tênis no abdômen que podem facilmente reverter a trajetória do alimento ingerido há pouco.
Mas são alegres, afinal, e contagiam quem com eles convive todos os dias. O viço explodindo de energia tem, afinal, esse poder de balançar o sentimento de quem já se esqueceu da chama que carregou alta um dia e que agora se transformou num pavio gelado.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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