— É, choveu pedra na Rússia!
— Grande coisa – desafia o companheiro de balcão, brasileiro que se vangloria de tanta chuva de granizo a despencar em território nacional em época de verão.
— Mas nesse caso é diferente – insiste o outro. Não é pedra qualquer, de gelo, que se precipitou lá no território gelado. Se fosse, ninguém daria importância num lugar onde ela nem líquido voltaria a ser. É pedra vinda do espaço, da maior parte do universo! Daquele lugar sobre o qual pouco se fala, talvez pela falta de conhecimento ou mesmo porque é de gelar a alma de qualquer um a insignificância de nosso mundinho perante ele.
— E são essas rochas que perambulam por esse lugar, que às vezes vem fazer pousada aqui só para chatear, deixar você introspectivo, filosófico, e de fala bonita, certo?
— Mas que conversa difícil é essa? Por acaso tem feito do dicionário seu livro de cabeceira? Apesar de que estava mesmo pensando na cara dos camaradas bebedores de vodka: “diacho, tinha que cair logo em casa e quebrar a minha garrafa?”.
Então, com olhar perdido e a imaginação repleta de cerveja, continuou, o sujeito do bar, seu voo para além fronteira e chegou a desejar ver de perto a vida em lugar onde nem é preciso o invólucro de garrafa para evitar que esquente a bebida. Talvez fosse bom passar umas férias por lá, no meio daquela gente que tocava seu dia a dia gelado sem suspeitar que teria sua rotina quebrada pelo evento cósmico que esquentou os ânimos pra valer.
Assim divagava o homem suado, de camiseta cavada, cheio de arrepios de pensar naquela tormenta pedregosa que assolou os russos. Nem percebeu, inclusive, quando o amigo encheu os copos e tornou ao assunto, caprichando na retórica.
— E disseram os cientistas daquele recanto pouco visitado pelo verão, que o impacto na atmosfera teve o efeito de trinta bombas nucleares. Imagine só o olhinho do ditador petulante como deve ter ficado arregalado só de pensar na força que teria se dispusesse de tamanho poder. Por certo faria perder o sono titio Sam e todo o seu feudo. Claro que depois, talvez fizesse como o cachorro que corre atrás do carro e se vai quando este para, por não saber exatamente o que fazer com ele. Ô Dito, serve mais uma, estupidamente.
— Depois sou eu que ando esbanjando filosofia. Além do mais, que história é essa de falar do primo rico nesses termos?
— Li em algum lugar.
— Aposto como leu também sobre o susto causado pelo asteróide que cismou de dar uma refestelada por aqui bem no momento em que o meteoro se espatifou em nosso telhado. Pense, meu amigo, se tudo isso tivesse acontecido ano passado, é provável que o povo cometesse suicídio em massa de medo de testemunhar o fim do mundo. Apesar de que… Eu não me surpreenderia se os Maias tivessem cometido um deslize nos cálculos.
— Chii! Esse papo já começa a me causar calafrios. Nada como um lourinha para acabar com mau pressagio. Por isso, quando o tempo fechar e uma chuva de meteoritos for certa, corro para o boteco.
— Não sei, não. Mas se continuar assim o ser humano vai acabar aflito. Não com a possibilidade de morrer, mas porque a ameaça que vem do espaço pode lhe tirar o privilégio de acabar com a vida na Terra.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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