INVEJADA VIDA DE PROFESSOR

Maiara dorme durante a aula. A professora do terceiro ano cansou de exigir que Maiara acorde para acompanhar as atividades. É certo que a menina até que vai bem, já que se destaca no quesito inteligência e, por causa disso, ainda é capaz de discernir com certa clareza a respeito do seu papel na escola e da importância dela em sua vida. Papo cabeça que papai e mamãe despejam sem dó em seus ouvidinhos infantis, inocentes aparelhos saturados de ouvir saudáveis conversas sobre a moral e os bons costumes. Talvez por isso procure, vez ou outra, brindar a aula com um grama de sua atenção, gesto que deixa eufórica a professorinha, privilegiada que se sente por ver a aluna dedicar um tempinho de seu precioso sono só para satisfazer o desejo dela. Fiapo de alegria que a eficiente profissional do ramo da educação experimenta depois de ter se esmerado tanto numa faculdade sem saber que seu sacrifício seria dobrado, uma vez empregada.

Mesmo assim, toca a vida no ofício que escolhera e que, imagine, lhe permitiu conhecer Maiara, menina obstinada e incapaz de tolerar voz de comando, sobretudo, do mais desprezível dentre os seres, a quem fora dado o direito de lhe dirigir a palavra com autoridade. E, verdade seja dita, ela não é diferente de outros de mesma idade ou mais velhos. Os que passam todo o período escolar envolvidos em contendas com professores, inspetores, orientadores… Essa gente que se lhes afigura o inimigo e para quem é preciso dedicar toda a astúcia e coragem nas armações e travessuras só para dar cabo de sua saúde e, assim, expulsá-lo de vez do seu caminho.

Não obstante o empenho de D.Lourdinha, porém, Maiara se depara ainda com a persistência de outros atores da trupe pedagógica que compõe a equipe escolar, dentre eles o entusiasmado professor de música.

Dia destes, aliás, este mesmo professor, numa de suas aventuras no terceiro ano, encontrou a protagonista da nossa história a exercitar seu passatempo predileto: o cochilo. Para seu maior conforto, inclusive, puxara sobre a cabeça o capuz da jaqueta que por si só já era grande o suficiente para aconchegá-la feito cobertor. Ah, que soninho bom!

— Não senhora! Se pensa que vai dormir na minha aula, está enganada! Pode tirar o capuz e sentar-se direito! – vociferou o professor.

Maiara nem tomou conhecimento da autoridade docente e permaneceu imóvel, entregue ao aconchego de sua blusa e da maciez da carteira.

— Maiara, estou falando com você! – insistiu veemente, o professor.

Nada.

Aí, já meio arrependido de ter escolhido o magistério como meio de vida, o músico, subitamente, sente aliviado o coração ao perceber um leve movimento, provável sinal de obediência e aquiescência da aluna. Ótimo! – pensou ele, orgulhoso de si mesmo.

Devagar, então, a enorme jaqueta se levanta e, sutilmente, revela somente o braço direito da aluna, que se ergue firme e solene, assumindo a postura altiva de um mastro de bandeira. E foi do alto desse mastro que o professor pôde, então, vislumbrar, estupefato, o dedo maior em riste, anunciando todo o desprezo da aluna por ele e sua matéria. Indignado, o mestre pediu auxílio à coordenadora, autoridade a quem compete providenciar a correção nessas horas. É preciso manter a linha, afinal!

Paradoxo dos paradoxos, entretanto, foi o sentimento que acabou por se abater lá no fundo da alma artista do professor, que vê com os olhos do coração as coisas da vida: a vontade irresistível de rir e aplaudir a aluna pela sua determinação e ousadia, traduzidas ali naquele gesto rebelde, como um ato de escolha diante da imposição.

 

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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