Em meio à desconcertante densidade verde, desponta, frágil e desamparada, uma vila com alguns casebres em ruínas, que deve abrigar uns poucos moradores. Lugarejo que é parte de uma grande cidade, uma cidade que dela se esqueceu, provavelmente porque ela esteja muito distante de sua enorme área urbana. Faz parte do território e é motivo de orgulho para alguns cidadãos que sequer a conhecem e nem sabem o porquê de tanto orgulho. Talvez reverbere em seu subconsciente algo sobre sua importância histórica. Mesmo assim, ela ficou esquecida por estar separada do centro urbano por imensa e exuberante região de Mata Atlântica, intransponível. É preciso, afinal, que se corte três outras cidades para lá chegar.
As pessoas menos sensíveis, para quem a história e as coisas antigas de nada servem, podem considerar exagero de minha parte me lançar ufanista para defender aqui a sobrevivência de lugar tão importante que remonta o início deste grandioso ABC. Mas é preciso, creio eu, que se volte a atenção para ela, uma vez que conserva relíquias enferrujadas e apodrecidas pelo tempo, documentos amarelados, guardados bem no fundo de uma gaveta para nunca serem desvendados e apreciados. Inconcebível prejuízo para a identidade da região, sem sombra de dúvida! Até porque, quem somos nós sem nossas lembranças? E o que a vila guarda é muito mais do que lembranças, é história, a nossa história.
Os ingleses que a construíram até ergueram, cheios de orgulho, uma torre que imita o seu Big Bang. E ela continua lá, a torrezinha continua lá, triste, entregue à degradação, marco do descaso, como é tendência neste país deixar de lado o que de fato tem valor. Por certo que se esta vila, dada a sua importância, estivesse localizada em outra parte do mundo, na Europa, por exemplo, teria sua beleza revigorada indefinidamente. Isso lá. Não no Brasil, paraíso de altas torres, muito mais imponentes que aquelazinha que, de tão acanhada, nem desconfia de que sua origem fora inspirada num prédio antigo de Londres.
É possível que os ingleses amassem a vila também por sua neblina que os faziam lembrar-se, nostálgicos, de casa. De fato a proximidade da serra lhe confere este charme britânico, embora a floresta tenha muito mais afinidade com esta pátria de matas que, vá lá, também estão com seus dias contados.
Mas é preciso dar destaque à iniciativa que tem promovido o festival de inverno lá naquele lugar. Trata-se, afinal, de uma semana cheia de festividades com barracas de guloseimas, apresentações musicais, artesanato e gente para cima e para baixo a apreciar curiosa a ferrugem e a degradação, quadro pitoresco pintado nas mentes dos visitantes que sustentam a ideia de que ela fora sempre assim. De qualquer forma, um movimento pouco comum para os habitantes do lugar!
Mas é bom aproveitar, porque toda essa alegria acaba muito rápido e depois, restará a velha rotina de solidão e esquecimento. Claro que no próximo ano lá estarão novamente as pessoas para prestigiar a vila, ou melhor, o evento.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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