LAMBANÇAS À BRASILEIRA

O ditador voltou a dizer que vai botar fogo na toca do grande urso branco, e este rosnou feroz. Pudera! Até eu, sujeito manso, nada afeito a grandes poderes, certamente que arreganharia os dentes diante de ameaça tão descabida. Em troca de quê cutuca  onça com vara curta, o soberano da península? Se bem que, verdade seja dita: rosnar é a especialidade do urso, já que não perde a oportunidade de se manifestar pelas redes sociais, modernidade que lhe permite abordar qualquer assunto que possa causar uma polemicazinha, e espalhar para o mundo em tempo real. Ameaçado ou não, é de fato o seu passatempo predileto vociferar. Até porque, é ferramenta que funciona também para manobras políticas, nas quais é perito. Desconfia-se até de que tenha se diplomado aqui, neste vasto circo verde-amarelo.

Corre a notícia agora de que está em curso uma reforma tributária lá no seu terreiro e, como acontece em pátria Tupinambá, há de tolher o poder aquisitivo de uma determinada camada social que evidentemente não come caviar nem se compraz com o novo iate estacionado lá na marina. E é justamente quando há descontentamento e os ânimos ficam acirrados,  que o urso bota a boca no trombone, despacha uma mega-besteira qualquer que ressoa mundo afora, causa um espalhafato enorme, faz com que toda a opinião pública se volte (ou se revolte) contra ele, e o bode doméstico, finalmente, é tocado para a lateral do campo. Coisa de político, todos sabemos.

Outro dia, por exemplo, em meio a tanta discussão sobre este assunto, sobre as armas e as almas americanas que sucumbiram ao seu poder, sobre a ameaça que vem do oriente, eis que o urso resolve apoiar um movimento britânico que se posiciona radicalmente contra o Islã. Não precisou muito: bate-boca generalizado. Até a primeira ministra ouviu desaforos.

E, enquanto isso, lá nas longínquas terras do leste, o ditador comemora outro disparo bem sucedido do foguete que foi chatear o amedrontado vizinho que já experimentou no coro o poder nuclear e que, por este motivo, é o único que pode falar com autoridade sobre isso. Seus olhinhos, inclusive, ficaram mais arregalados do que nunca, enquanto o outro arregalava os seus de espanto ao ver que o seu tão estimado brinquedo ganhou a estratosfera, viajou quase mil quilômetros e foi ter lá em águas japonesas. E bateu palminhas, o sujeito que também ameaça jogá-lo no terreiro do urso, atitude que voltou a colocar a opinião pública mundial contra a sua obsessão.

Mas ele não desiste. Segue intrépido seu destino de transformar o país naquilo que chama de potência nuclear, doa a quem doer. Acontece que Tio Sam anda apreensivo e não gosta nada da molecagem. Insiste, inclusive, que o grande aliado do ditador tome as rédeas, passe um pito no moleque e acabe de vez com a farra. O aliado, no entanto, diz que a coisa não funciona bem assim, que é preciso tato, que caminhar sobre ovos é sempre uma empreitada difícil. Logicamente que num momento de grande expansão econômica, a última coisa que o dragão deseja é guerra. Só se puder faturar algum com ela.

E, a despeito dos insultos, tudo indica que o urso não leva mais a sério o gordinho que já cansou com tanta conversa fiada que enche de tédio a sua vida. Por isso, para apimentar mais os ânimos que já andam exaltados, decidiu agora mexer com os árabes. Ninguém melhor! Decretou, pois, que Jerusalém é a capital de Israel, e que assim deve ser reconhecida pelo governo de Tio Sam, o mais importante de todos.

Parece que, em busca do mel, o urso acaba de meter a mão no enxame.

 

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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