— Acontece que eu não gosto de português! Gosto de matemática, ciências, geografia, qualquer outra coisa, menos português.
— Mas por que, Luana?
— Porque é um saco, ué! Primeiro que tem um monte de texto pra ler e interpretar todos os dias. Depois, tem a gramática de cada um deles que o professor vai explicar até a gente desistir de viver, deitar na carteira e puxar aquela paia. Afinal, quem é que aguenta?
— Mas menina, português é tão importante quanto as demais matérias! E é por meio dela que se aprende a ler e a entender os textos que fazem parte, ou melhor, que recheiam as outras disciplinas, e as receitas e os manuais e os contratos e as canções e a vida… Já parou para pensar nisso?
— Nem ligo. Acho que daria pra tocar muito bem só com as outras, sem essa chatice de português.
— Ocorre, Luana, que não é possível.
— Tá, então eu tenho que estudar aquilo que não quero? Será que o senhor entende que é uma questão de opção não querer?
— Não, não é.
— Quer dizer que se não gosto de uma roupa, sou obrigada a usar assim mesmo? Não uso e pronto!
— Acontece, Luana, que não falamos aqui de uma roupa, falamos de uma disciplina que faz parte do currículo e, portanto, fundamental. E é bom você parar de chateação e se aplicar, do contrário poderá perder o ano e o bonde para o futuro.
— O quê?! Nem ligo! O senhor gosta porque é o professor, ora!
Definitivamente Luana não entende a razão de ter que estudar o verbo que transita e o que não transita, e o porquê do predicado ser nominal e não verbal é outra questão que aflige a aluna. Sem falar do número de orações que compõe o período, outra aporrinhação que soa mais complexa do que equação do segundo grau, aos olhos daquela que repudia a obrigatoriedade do ensino de língua portuguesa, sobretudo da rançosa gramática.
— Luana, você tem que entender que alguns de seus colegas podem não partilhar desta sua opinião, um tanto radical, e apreciar sim a leitura de um bom texto, uma saborosa análise sintática, e até considerar, por que não, a possibilidade de dar um mergulho no extasiante universo da hermenêutica, lugar de onde é possível espreitar a sua intimidade manhosa e, quem sabe, angariar alguma sabedoria.
— Chii!! Agora complicou de vez!
— Além do mais, você há de concordar que sem a concordância até nossa fala fica prejudicada… Se o período é composto por coordenação ou subordinação é questão que ajuda, inclusive, a entender a atual taxa de juros, o desemprego, a desigualdade social, a loucura humana na qual está metida esta nossa sociedade século XXI, e tudo o mais.
— Pelo que eu vejo, é o senhor que tá louco e põe a culpa nos outros.
— Louco por gostar da minha matéria?
— É!
Definitivamente, Luana está irredutível e considera estudar função e plano cartesiano, atividade muito mais divertida e interessante do que se entregar a uma meditação zen, condição primeira para se buscar o silêncio e a paz da alma, estado de espírito essencial quando se deseja penetrar no intrincado universo da oração coordenada sindética.
Mas é obrigação do professor buscar estratégias para estimular o aluno quando este se mostra pouco propenso a desenvolver qualquer proposta em sala de aula. Pelo menos é o que reza a cartilha pedagógica, toda ela repleta de objetos diretos e indiretos que revelam com clareza ao profissional do ensino, inclusive o de língua portuguesa, meios de mostrar aos estudantes a importância de se dominar a conjugação dos verbos e deles tirar proveito quando for preciso levantar a voz para se fazer ouvir.
Apesar de que… Não… Acho que não. Pensando bem, há mesmo um ensejo de que estes permaneçam no ostracismo e que pouca habilidade tenham no trato com a língua. Dificuldade para falar, dificuldade para entender, dificuldade para pensar. Droga!
RODOLFO DE SOUZA
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