E o ser humano que dá duro é mesmo assim, passa os dias pleno de afazeres, assoberbado até o pescoço, sonhando sempre com finais de semana, feriados, férias, aposentadoria, qualquer dia consagrado ao descanso. Fomos brindados, afinal, com o trabalho que, por vezes, faz pesar nos ombros o cotidiano que nos obriga a matar um leão por dia e prosseguir altivo.
Já ouvi dizer de gente, lá do estrangeiro, que não vê com bons olhos esse costume brasileiro de arranjar um feriadozinho para qualquer bobagem. Para mim é pura inveja. Esse povo despeitado bem que adoraria poder dormir até mais tarde ou correr para a praia num feriado bom, com direito a ponte e tudo mais.
Final de ano, então, descanso com direito a férias, férias coletivas, recesso e coisa e tal, faz enlouquecer a gente que trabalha e aproveita o momento para se livrar de tanto estresse, partindo logo para o que há de melhor: as estradas. Logicamente que é anseio de todos essa busca pela fuga da cidade grande, sandice que deixam apinhados aeroportos, estações rodoviárias e afins.
As rodovias, por sua vez, foram projetadas para atender a milhões e milhões de veículos que entram e saem das cidades. Anualmente, claro. Só não pensaram os engenheiros em projetar rodovias que atendessem às necessidades dessa gente toda ao mesmo tempo, num só dia, a uma só hora. Por isso engarrafa o trânsito. Culpa dos engenheiros mal formados. Mas o povo não há de se aborrecer com tão ligeiro inconveniente, não é? Em nome da celebração e do descanso, qualquer sacrifício é válido! Só de pensar na chegada, o coração quase explode de ansiedade. Bolas para a lentidão e para o caos instaurado.
E a estrada, que deveria ser a saída para a situação de estresse, é só mais um obstáculo. Imagine, o imprescindível serviço de rodagem relegado à condição de pedra no sapato de quem viaja de carro! Mas quem se importa, afinal? Que venha o sossego!
Vencida, pois, a questão nada confortável do “para e anda” numa rodovia que normalmente permite a estupenda velocidade de 120 km/h, chega-se ao destino. Cidade pequena, com campo, mata e rio. Maravilha de vida pacata! Se tiver uma praia, tanto melhor!
Uma vez instalada a família, então, corre-se em busca do centro da localidade, onde por certo que há supermercado, banco, farmácia, conforto que o morador urbano não é capaz de dispensar, seja lá onde for que estiver, até no topo do Everest. E todos os visitantes, imbuídos do mesmo afã, partem para o mesmo destino, com o mesmo objetivo. E a caixa de fósforos que é o lugar fica pequena para toda essa gente que reclama do atendimento, das filas, do tumulto… Confusão, aborrecimento e barraco é o que não faltam nessas horas. Tudo causado por ele, sua excelência o turista. Ah, que saudades do hipermercado da minha metrópole que dispõe de 50 caixas para o atendimento! Mas aqui… Paciência! – já é possível ler nos olhos daquele que acaba de chegar e percebe que trouxe o caos da cidade grande para o aconchego que a cidade pequena deveria proporcionar. Tudo em nome da tranquilidade que superlota todos os locais possíveis.
O povo que está no litoral não deixa por menos: torna ainda abarrotadas as praias. Fica, então, complicado deitar no solo arenoso uma esteirazinha que seja. E quando isso é possível, corre-se o risco de ser atropelado a todo instante pelos carrinhos de quinquilharias, comidinhas e bebidas. E, não bastasse tudo isso, o bocadinho de areia que lhe cabe por justiça, é sempre contemplado com muito barulho gratuito, oriundo daquele que levanta a tampa do pequeno porta-malas, todo ele forrado de equipamentos de som, e despacha logo o pancadão. Claro que o espaço é democrático e é preciso entender o desejo alheio de disseminar a cultura.
Uma vez superado o trauma, no entanto, é bom sentar e apreciar as ondas, o vento bom e… Pronto, uma bolada em cheio! Isso… Porque é preciso jogar futebol na praia, afinal, não importa o número de pessoas que disputam espaço naquele recanto. Fazer o quê?
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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