─ Sou a favor dos reajustes mensais, semanais, diários, horários e de todos que possam me tornar cada vez mais rico, eu e meus amigos acionistas desta mega empresa do petróleo. Gente de bem que conta comigo para faturar alto, já que deposita sua confiança e seu rico dinheirinho neste mercado prá lá de vantajoso, e não espera que eu vá decepcioná-los um dia. Você entende?
─ Claro! Mas o que me custa entender, digníssimo executivo, é como um sujeito que nasceu com o gene da riqueza necessita ainda se tornar milionário, bilionário, ou biliardário, sei lá! Jesus! É tanta grana que me foge à compreensão tamanho disparate monetário. Acho que, a partir de uma determinada quantidade de dígitos, os números começam a embaralhar a vista, o raciocínio, e perder o sentido. É o mesmo que tentar mensurar a distância entre as estrelas e me imaginar viajando de carro entre elas.
─ É, eu compreendo, amigo proletário. De fato, assim como não lhe é familiar ver tantos algarismos numa conta bancária, eu também não sou capaz de imaginar o cotidiano de dureza desse seu mundinho de pouca ou nenhuma oportunidade. Nasci num outro lugar, repleto de facilidades e luxo, onde, graças ao meu jeito em lidar com a coisa, eu permaneço feliz e saudável. Dar duro na vida, definitivamente não é para mim. Aliás, nem perco meu tempo pensando nisso.
─ Mas a sineta da sua consciência deveria lembrá-lo, volta e meia, de que toda a sua fortuna vem daquele que sua a camisa num volante de caminhão ou do que batalha o sustento e o pouco combustível que põe no tanque do carro que comprou a prestação.
─ Não. Não vem dele! Minha fortuna vem do meu talento para negociar e em fazer as amizades certas. Talvez a sorte por ter nascido numa família rica tenha ajudado um pouco, admito.
─ Tem de admitir também que muito do seu dinheiro brotou dessa fonte inesgotável que é sua política de preços dos combustíveis daqui desta terra de meu Deus, para a qual dá as costas só para fazer sorrir impérios que já são senhores de outros impérios e que agora anseiam por nos engolir.
─ É. E daí?
─ Daí que o petróleo, para deixar os porões deste mundo, necessita dos braços fortes de alguém, o mesmo que lhe trás grana, poder e essa cara lavada com que trai a sua gente. Aposto como nunca pensou nisso.
─ Já. Considero, inclusive, a dura realidade que sujeitou o peão à pobreza e ao trabalho árduo num chão de fábrica.
─ Ah!
─ Considero problema dele, não meu. Aliás, é sina. Ele nasceu para servir. Não pode compará-lo a mim que estou aqui só para ganhar e mandar. Pronto! Olhe só o que você conseguiu com esse seu discurso: poluir a minha mente com assuntos que não dizem respeito ao meu mundo.
─ Que mundo?
─ O mundo da exuberância, da conquista e da grana fácil!
─ Que não existiria sem a mão de obra. Aliás, eu penso até que, a continuar neste rumo a situação, o povo empobrecerá cada vez mais, o consumo diminuirá e forçará os preços para baixo, inclusive, dos combustíveis.
─ Acha mesmo que me importo? Se parar de faturar hoje, não darei conta de gastar toda a minha fortuna enquanto viver. Nem os meus descendentes saberão o que é miséria.
─ Certo. Mas se é assim, por que continuar? Por que exaurir as forças do seu povo se já tem muito mais do que necessita um ser humano para viver com conforto?
─ Porque é preciso mais, muito mais! E não me pergunte por quê.
─ Não adiantaria mesmo perguntar. A resposta, nem você nem eles a possuem.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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