MANHÃ CHUVOSA

É cedo. Algo entre seis e quinze e seis e meia. Chove. Há pouco, debaixo das cobertas, no acolhedor ambiente familiar, tudo era silêncio e a impressão que se tinha era de que o mundo havia parado em função da chuva que encheu de penumbra a manhã da minha cidade. Mesmo assim, empurrei-me goela abaixo a força de vontade que, sem sombra de dúvida, me faltava naquele dia que só iniciava. Mas o frio e o barulho da chuva no telhado convidavam mesmo para o aconchego da cama. No entanto, ciente de que se tratava de um dia normal de batente e de que preguiça é pecado, pulei. Mesmo porque, desfrutaria do conforto de um carro na ida ao trabalho, peso na minha consciência de cidadão privilegiado que assiste ao sufoco da gente que enfrenta a rua com guarda-chuva que deve ser fechado e sacudido antes de se embarcar na condução abarrotada de pessoas molhadas e impacientes.

E ali, parado no congestionamento que ainda é pequeno, apesar do mal tempo, eu penso, como é hábito meu pensar, e acabo por encontrar inspiração para mais um texto que ora deito neste papel digital. Por certo que as gotas escorrendo devagar pelo parabrisa colaboram para aguçar este sentimento que me vai, fustigado ainda mais pelo vento que ameaça dobrar as árvores de praças e passeios, lá fora. E lá, adiante do vidro está o movimento da manhã fria e cheia de uma normalidade aparentemente palpável.

Súbito, o sujeito de trás buzina rancoroso para avisar que o carro da frente segue o seu caminho e que eu devo fazer o mesmo. Insolente!

E a velocidade aumenta a força da chuva, obrigando o limpador a se empenhar no seu papel de tornar nítido o rosto da vida que segue à minha frente. Paro de novo e observo a água que escorre pela enorme vidraça da loja. Pessoas correm ou andam apressadas de cabeça baixa, encolhidas, agarradas aos seus casacos, submetidas agora à intempérie. Tudo indica que se dirigem ao trabalho. Só pode ser para o trabalho. O que mais as arrancaria da cama quente numa manhã como esta? Os ônibus seguem lotados; os carros, com um ou mais ocupantes também se dirigem para a lida que deve consumir todo o dia daqueles; caminhões, veículos concebidos exclusivamente para o serviço, passam a todo o instante, por toda a parte; motos correm para lá e para cá como vespas… Frenesi de pernas e rodas na manhã chuvosa. O que vai na mente de cada um, nem imagino. Anseios, histórias diferentes da minha, medos, euforia e decepção, envolvimento com um trabalho de tipo ignorado por mim, atividades diversas, vidas diversas.

A moça, à frente da bomba de combustível, aperta os braços e denuncia o frio e a função para a qual fora contratada. Tudo indica que as blusas escolhidas no armário, coitada, não lhe são suficientes para protegê-la do frio ao qual é exposta no seu emprego. Sagrado emprego! É gente assim, como ela, como eu e você, que passa a maior parte do ano suando a camisa acima dos trinta graus e, que agora, bate os dentes com a temperatura que despencou nos trópicos.

Sigo, assim, o meu caminho mergulhado no pensamento sobre o clima, o dia a dia, e o efeito de tudo isso sobre as pessoas. E acabo por concluir que esse esforço faz delas especiais, duras na queda. É para isso, afinal, que serve o sol quente na cara, o vento, a chuva no lombo, o frio, a desfeita, a contrariedade, o não…

 

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

 

 

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