PAIS E FILHOS

Lido com a juventude, porque faz parte do meu trabalho lidar com ela. E, por conviver com essa alegria esfuziante e disfarçada ao meu redor, no seio familiar e por toda a parte, é que percebo, com alguma apreensão inclusive, que estamos diante de um povo que se fez adolescente, atingiu a maioridade, se deslumbrou e se assustou com os novos tempos. Atemorizou-se quando abriu a porta do lar e deu com um mundo que não correspondia bem aos seus anseios de criança mimada.

E vinha pensando sobre a superproteção e a extrema condescendência paterna nos dias atuais, quando, em meio ao público que me cercava, em verdadeira aglomeração, flagrei-me a bisbilhotar diálogo entre pai e filho, pitoresca conversa que, na hora, já me levou a imaginar estas palavras. O sujeito de fato presenteou-me com a inspiração necessária no momento em que atendeu ao celular, em lugar repleto. E não foi difícil constatar que se tratava do rebento na outra linha. Afinal, conversa de pai e filho é, digamos, um tanto familiar para alguém que, há muito, acordou pai.

O diálogo remetia ao dilema de um garoto que acabara de inaugurar a carteira para dirigir e pilotar, e comunicava ao pai a sua intenção de pegar uma estrada logo mais, no final de semana. Daí é que o caldo entornou de vez. E, enquanto os presentes se entreolhavam diante da exaltação nervosa do homem, eu decidia pela construção deste texto.

“Não, Gabriel, você não vai pegar estrada com uma moto sem velocímetro e com um pneu traseiro barato, de origem duvidosa. Não, Gabriel, GPS não é a mesma coisa que velocímetro. O quê? Você vai à noite? Para quê? Ah! Porque a Dandara pediu! Mas não foi a Dandara quem emprestou o dinheiro para a compra da moto, fui eu! Nem foi ela quem pagou sua carteira, fui eu! Aliás, a moto está no meu nome, Gabriel. Não, Gabriel, andar devagar na estrada também é perigoso. E de onde você tirou a ideia de que tem de estrear a carta numa estrada? Além do mais, ir para a praia com esse frio! Francamente, Gabriel! Mas é sempre assim, você deixa para comunicar na última hora. Você sempre faz o que bem entende, Gabriel! Você nunca me ouve, Gabriel!”.

Não posso condenar o indivíduo que até me despertou certa compaixão e me fez recordar dos velhos tempos em que os pais, bem cedo, impingiam aos filhos uma série de regras que, por certo, haveriam de torná-los homens de verdade. A despeito da masculinidade da coisa, as garotas também eram sujeitas às duras normas impostas por aqueles que enxergavam a vida de um modo ofuscado pela pouca informação e pelo parco conhecimento. Uma gente refém dos conceitos e das crendices de outrora, certa de que tudo se resolvia com uma boa cinta.

Entretanto, o tempo passou e as novas gerações, não muito satisfeitas com o modo de vida a que foram submetidas, decidiram que sua prole experimentaria um outro tipo de convivência familiar, qualquer coisa mais suave. E, pelo que vemos, exagerou. Afinal, os pais do passado pecaram por um excesso, os de hoje, por outro.

 

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

 

 

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