SATANÁS DÁ UMA FESTA

Satanás decidiu dar uma festa. Para tanto, convocou sua legião de demônios, fieis seguidores convidados exclusivamente para abrilhantar o evento. São eles seres obscuros que um dia se encheram de entusiasmo ao ouvir do ídolo que receberiam, em troca de seu apoio, muita infelicidade, no decorrer de toda a sua horrível existência. Mas demônio é assim mesmo: alimenta-se de dejetos e acha bom. Foi a sua natureza de parco saber que fez dele tão vil criatura, coitado.

E então, sem se conter de tanta euforia, foram todos, com suas vestimentas e demais paramentos, para a tal festa. Indumentária logicamente adquirida pelos seres das trevas, entidades superiores que em tudo pensaram para o sucesso da empreitada. Pensaram, inclusive, no detalhe das cores do figurino que a horda deveria exibir. Sempre as mesmas, diga-se de passagem.

Providenciaram, pois, lindas camisas, bonecos infláveis, carros de som, guindastes para erguer estandartes, etc. Tudo muito bem planejado para que nada resultasse errado e provocasse vergonha na turba enfurecida e feliz a ostentar a soberba que escorria pelo canto da boca. A despeito da compulsão que tem por um vexamezinho, ela de fato se empenhou em parecer numerosa e alegre.

Claro que ninguém, diabo ou não, chegou a questionar a origem dos recursos para a compra de tanto material. Até porque, foram vistas as mesmas camisas em pontos diferentes e distantes, no ambiente carregado de festividade infernal em que os diabos, de rabo empinado e chifres afiados, gritavam e esbravejavam contra… Contra o que mesmo? Tudo bem.

Mas por que haveria Satanás de fazer festa em momento em que nada há para se comemorar cá no inferno? – é a indagação que circulou dentre as pessoas que não foram acometidas pelo mal demoníaco, embora, convivam sob o mesmo teto da bestialidade que dedica todo seu amor, admiração e baba a Satã.

Celebra-se, neste dia memorável, todo o empenho do poder em se manter no poder. Foi a constatação a que se chegou, tendo em vista a atuação dos bajuladores, que defendem o monarca dos ataques constantes que sofre daqueles que cultivam um mínimo de inteligência e de bom-senso, neste vasto reino sombrio.

Por isso, Satanás, vaidoso que só vendo, não poupou esforços para fazer da festa algo que marcasse pelos gritos de clamor, dadas as benevolências que sua majestade concede gratuitamente aos seus. E também, seguro de sua estima no reino, Belzebu sabe que a horda jamais se voltará contra ele um dia, mesmo que venha a ter fome por falta de trabalho, mesmo que jamais possa sonhar com aposentadoria ou que seja trucidada pela violência galopante. Mas tudo é amor e idolatria na escuridão. Afinal, a cegueira da ignorância crônica poupa a demoniada da dura realidade que faz sofrer aquele que cultiva um fiapo de inteligência.

Mas, apesar de tanto esforço, sua alteza andou reclamando, logo depois, que faltou entusiasmo na festa. Disse, o ingrato, que seus súditos não se esforçaram o suficiente. Talvez lhes tivesse faltado um bocadinho mais de garra nos gritos de louvor ao chefe supremo. Mesmo assim, seu séquito segue afirmando que foi a maior festa da qual já participaram, e que outra igual não houve nem haverá. Aliás, demônio é feliz, porque se ilude facilmente e se regala com qualquer porcaria.

 

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

 

 

 

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