O homem foi apanhado em flagrante delito. Tentava furtar chocolate de um mercadinho de periferia, e não foi favorecido pela sorte, que lhe deu as costas no momento em que a câmera matreira espiou a ação e o entregou sem dó. O sujeito, que já se imaginava devorando o delicioso tablete, não suspeitava do seu amargo sabor. Só lhe interessava, naquele derradeiro instante, se apropriar do objeto de desejo e cair fora sem passar pelo caixa, uma vez que não dispunha do cacau necessário para pagar por ele.
Chegou a salivar, assim que botou a mão na barra, toda metida naquela embalagem maravilhosa que faz do chocolate algo ainda mais precioso. Sim, porque não seria tão bom e atraente sem o invólucro que o publicitário se esmera em pensar e conceber. Mas o indivíduo, no momento supremo de sua existência, definitivamente não haveria de pensar na inspiração do profissional da propaganda. Pensamentos assim normalmente vagam só pela mente de artistas, esses loucos que ainda fazem deste mundo algo um tanto melhor. Gente que talvez possa comprar um chocolate, o que, sem dúvida, não era o caso do moço e sua gula pelo produto que imaginou fácil de levar. Fora tentado, afinal, a comer do fruto proibido, sem saber que lhe custaria caro a aventura pelos corredores do mercado.
E, assim, buscou a saída, certo da vitória diante da ineficiência do sistema.
Foi surpreendido, no entanto, pela segurança do mercado, que a tudo assistira pelos monitores. Câmera dedo duro a exercer bem o seu papel de dar proteção ao capital.
O povo, transeunte do lugar, certamente imaginou que o moço seria conduzido ao olho da rua, para buscar ali o alimento necessário para a subsistência. Que não haveria de ser chocolate, obviamente. Um luxo, para quem não dispõe de um vintém.
Entretanto, o meliante teve outro destino. Fora levado a um depósito nos fundos do estabelecimento, para ali receber o devido castigo. Os guardas por certo que se imaginavam senhores da lei num Brasil pré-abolição. Tempo em que se tratava feito bicho uma determinada parcela da população que, no futuro, trataria de colorir o coro da raça habitante daquele remoto lugarejo. Destaque para o fato de se tratar de um período sombrio que, tudo indica, está de volta.
E foi ali, na claridade que vinha de um vitrô, que o jovem, despido pelos guardas, experimentou a dor no físico e na alma, que se deu por meio do açoite com fio elétrico. Era a luz de um dia qualquer do século XXI, século da tecnologia, que testemunhou a brutalidade autorizada.
Apanhou o jovem, talvez, para servir de exemplo a outras criaturas inadvertidas que, por ventura, venham a adentrar o recinto para dele subtrair qualquer coisa.
Mas a evolução humana pede uma reflexão sobre o assunto. Na verdade, exige um questionamento sobre o porquê de uma pessoa ter de roubar para comer, e apanhar pelo pecado cometido, num país de gente muito rica que, possivelmente, tenha aplaudido a atitude da segurança do mercado, ou simplesmente desdenhado da questão.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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