Haverá mesmo um ensejo para se correr às ruas, dando vazão ao grito de liberdade preso na garganta? Ou será somente descaso? O céu azul e o sol tépido de outono, sem dúvida, fomentam essa vontade incontida de ganhar o espaço aberto, quando o momento exige cautela. Também, porque há um desejo quase compulsivo por se contrariar um sistema de saúde que implora pelo distanciamento social, claro. O ser humano é mesmo assim: tem um apreço especial pelo que lhe é proibido. E é justamente o sentimento que lhe ocorre com relação ao espectro que ronda este plano nos dias de hoje.
Há, pois, uma parcela da população deste imenso quintal que almeja cortejá-lo, abrir para ele o seu peito destemido. São grupos que desafiam o isolamento e partem para o convívio entre os iguais, indiferentes aos apelos que vêm por meio da mídia, que adverte para que se recolham. Isso por certo que gera um conflito entre estes e as pessoas que cultivam, de longa data, um mínimo de bom senso. Quanto a este último, cuidar da sobrevivência é ideia primeira, que não deve ser abandonada em hipótese alguma, mesmo porque, outros dias ensolarados virão e, para os quais, será dedicado um longo abraço. Quem sabe aí, o vírus seja coisa do passado, não é?
Os fatos se repetem no mundo, com dimensão estarrecedora. E as imagens com definição em 4K, estão aí para nos esfregar na cara a urgência da coisa. Mas dá a impressão de que experiência serve somente a uns poucos, não a todos, como se não pertencêssemos ao conjunto de seres humanos, habitantes do mesmo planeta. Todos à mercê do fantasma que se materializou e agora apavora.
Antigamente as notícias demoravam para correr o mundo. As campanhas também. Fator que constituía boa desculpa para a negligência. Hoje, contudo, os satélites cuidam para que a informação alcance todos os pontos cardeais em tempo real. Um fato acaba de ocorrer e logo se transforma em manchete, que rapidamente ganha a rede, os telejornais e afins. Não há como ignorar nem o porquê se dar as costas para o sinistro que ora se impõe sobre o poder. Forças terrestres, navais e tais, com seu poderio nuclear podem sucumbir facilmente à molécula daninha que nada pode contra o aço, mas que tudo pode contra a mão que o transforma em arma de morte.
Mas o povo corre para as ruas. Alguns seguem em busca do ganha- pão, o que há de se fazer? Outros correm para conseguir, ao menos, uma informação sobre a forma como receberão a esmola que o bondoso governo lhes concederá em tempos de desespero. Entretanto, em meio ao caos, tem aquele indivíduo que inadvertidamente passeia pelas ruas, praças, jardins… Gente que não abre mão de uma boa dose de bajulação social. Talvez desconheça a gravidade da situação, talvez aguarde até que o bicho venha a fazer morada em seu corpo imune, levando-o a refletir sobre o fio tênue que suporta a nossa existência neste plano redondo e bonitinho.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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