TEMPOS DIFÍCEIS

Saudade do tempo em que ganhar a rua todos os dias, rumo ao trabalho, era gesto natural que ninguém via como fora do comum ou mesmo perigoso.

Saudade do tempo em que dirigir e se meter em trânsito lento era rotineiro, mecânico e aborrecido, embora fizesse parte de um cotidiano de liberdade.

Saudade do tempo em que correr à padaria em busca do pão fresco era comum e levava ao salutar exercício da caminhada.

Saudade de ir à feira, checar as verduras e as frutas, comer pastel, ver uma coisa e outra… Saudade de bater perna no shopping, no mercado, por aí…

Saudade de caminhar debaixo do sol tépido de outono até a rotisserie para buscar o frango assado de domingo. Saudade de, no caminho, dar uma espiadela na pelada no campo de terra, eu que normalmente não me interesso por futebol, mas que via ali, naquele evento singelo, um realce à vida, sentida em toda a parte.

Saudade do vento no rosto.

Saudade de não sentir medo do invisível, do tinhoso onipresente.

Saudade de comer um espetinho na rua, de ir ao banco com receio de enfrentar somente as filas e não sentir pavor do ar que sai da boca alheia. Saudade do tempo em que se via o espirro ou a tosse como sintomas de um resfriado qualquer.

Saudade do cinema, do teatro, saudade da conversa fiada no churrasco de sábado.

Saudade de ver na TV os escândalos políticos diários, os entraves internacionais, a miséria humana retratada em cores ou em preto e branco… Qualquer coisa que nos remetia a assunto que não tivesse relação com ataque virótico, número de contaminados, quantidade de mortos.

Saudade de cumprimentar as pessoas de perto… Aperto de mão, abraço fraterno, olhos nos olhos.

Saudade de lavar as mãos sem a paranoia de ter que lavar e esfregar, e esfregar, e esfregar, assim e assado…

Saudade de poder usar o corrimão sem medo, de pegar no carrinho de supermercado sem medo, de tocar nas mercadorias sem medo, de usar sem medo o teclado da máquina de cartão, do caixa eletrônico, do raio que o parta.

Saudade de não sentir medo de quem acaba de vir da rua, do bom dia do vizinho, da correspondência que o carteiro deixou na caixa, da sacolinha do mercado, da verdura que o feirante tocou antes de lhe entregar, da coceira no olho, no nariz…

Saudade dos filmes sobre pandemia, que davam nos nervos, mas que, uma vez desligada a TV, o espectador logo voltava para uma realidade cheia de guerras, violência, desigualdade social, corrupção no poder, tudo, enfim, que não presta, só que sem a presença da peste que retornava para a insignificância da ficção.

Saudade da normalidade absurda em que se vivia. Saudade dos amigos, das conversas do dia a dia, saudade da rotina que envolvia trabalho presencial, vai e vem, vida agitada, debates, embates e soluções, ou tentativas de se sanar problemas simples diante do que se vive hoje.

Saudade do tempo em que não se tinha notícia da partida de gente amiga, levada pela peste.

Saudade de não sentir medo do medo.

 

 

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

 

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