Não se trata de uma pessoa o objeto desta inspiração. Sei que soa contraditório, tendo em vista ser o bicho homem o sujeito da crônica. E reitero, já que vem dele vasto material para encher de cores uma tela branca como esta, sobre a qual me ponho agora a redigir uma homenagem a um ente querido. Difícil, inclusive, não descrever também a dor que sua ausência tornou tão pungente.
Este texto tem, pois, a pretensão de contar um pouco da história de uma gata. Sim, uma gata! Um ser especial que esteve presente em nossas vidas por considerável espaço de tempo. Período suficiente para que uma relação de proximidade e afeto se desenvolvesse. Sim! Rendo-me à sua observação, sábio e perspicaz leitor, já que ligo a vida do bichano à de gente. De fato, mesmo quando o assunto diz respeito a um animal, sabemos que este certamente marcou a vida de alguém, pessoa como eu e você.
E nossa história com a gata começou quando ela chegou assim, como quem não quer nada, fez uso de todo o charme que a divina providência houve por bem conferir a ela, e cativou este coração escritor que ama tudo o que está relacionado à natureza incluindo, obviamente, os bichos e toda a sua pureza.
Considero, não obstante, o fato de ter partido desta mesma natureza o germe que deu origem ao homem, que se multiplicou e povoou este mundo, sobre o qual caminha agora sem rumo, renegando a sua origem com o seu apreço compulsivo pelo vil metal, que tudo tende a colocar abaixo. Por isso, não posso afinar-me com ele. Requer a situação que eu me afine com os gatos.
Não devo, entretanto, me ater a pensamentos tais que me desviem da história de Maria Rita, ser evoluído que merece aqui toda a consideração e destaque. Mesmo porque, o fato de dar ouvidos a certas recomendações domésticas, e comentários corriqueiros, fazia dela um animal diferente, com atitudes que surpreendiam. Maria Rita era, afinal, uma gata, como eu costumo dizer, de telhado, um bicho livre. Liberdade que, aliás, fizemos questão de preservar. Morar conosco foi mesmo a sua opção. Talvez por ser muito bem tratada em casa, por receber tanto carinho é que passava seus dias e suas noites em nossa companhia.
Mas foi lá fora, na parte baixa do muro que fizemos nosso primeiro contato, lugar onde decretamos e estabelecemos a confiança mútua.
Em seguida, matreira que só vendo, se apropriou do coração de minha filha, que a levou para dentro de casa e da vida das pessoas. Linda e com uma pelagem de cor única, ela encantou a todos, que também se renderam à sua discrição, caminhar silencioso e olhar penetrante.
Mas minha filha um dia viajou para conquistar novos horizontes, e Maria Rita, agora da casa, fez do colo de minha esposa o seu aconchego diário. Ver, pois, a gatinha estirada no asfalto, morta pelo tirano que passara em alta velocidade, despedaçou o coração de todos, sobretudo daquela que passava os dias conversando com o bichinho, tirando fotos suas, filmando… Registrando, enfim, diariamente suas travessuras e seu sossego para tudo enviar ao país distante nas asas da tecnologia.
Pois é… É a vida! O caro amigo já deve ter percebido que, embora Maria Rita tenha partido, sua presença é chama acesa em nossos corações.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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