A enfermeira morreu denunciando a situação de penúria no hospital.
O médico morreu inconformado com o descaso das autoridades, que não proveram de recursos o sistema de combate à praga.
E o povo nas ruas como se nada soubesse.
O poder manda que se prescreva a droga proibida pela ciência, na luta contra a peste. A medicina bate o pé, o poder força o uso e o paciente morre, por causa de uma ou de outra coisa. Ou de ambas.
O melhor remédio, conforme determina a experiência em outras nações, é o isolamento social. Mas o grande capital que elege ameaça o governante de retirar seu apoio no próximo pleito, caso não reabra a economia. E o executivo treme só de pensar na saia justa em que se metera, situação que o obriga a permitir a reabertura do comércio, que ele chama de restrita, controlada, gradual e coisa e tal. Procura desviar também o olhar, acovardado, do retrato que anuncia o desastre iminente.
E enquanto a polêmica da droga, do vírus, do abre e fecha rola de boca em boca, o povo não deixa as ruas.
Os números só fazem crescer, deixando cada vez mais dramático o quadro. Um rastro de mortes pelo caminho, para o qual o poder dá as costas.
E o povo segue nas ruas. Uns para trabalhar, outros para passear, para exercitar braços e pernas e para aconchegar no peito o tinhoso, que só necessita de um organismo humano para disseminar o seu ódio pela raça, como se andasse sobre duas pernas, portando arma de fogo e muita munição.
Mas é preciso reparar na realidade de que há uma luta travada para se conter o mal virótico. Uma batalha em cuja frente encontram-se médicos, enfermeiros, cientistas e demais operários do ramo hospitalar. Gente que ganha homenagens e aplausos para darem a cara ao tapa, todas as horas e todos os dias. E tudo o que se pede é que só deixe o ninho o pássaro que necessita alçar voo para trazer alimento aos filhotes. Os demais que se aquietem.
Cidades do interior deste imenso e rico São Paulo, por exemplo, cultuam a palavra flexibilizar como se fosse um deus, e promovem a reabertura e voltam a assistir o número de contaminação crescer em escala geométrica.
Capital e adjacências dizem que a coisa vai bem e reabrem. O povo corre para as ruas, feito louco. E as estatísticas continuam a apontar para um cenário devastador, caso as pessoas não contenham o ímpeto de ganhar a liberdade tão cedo. Mesmo assim, elas seguem, desesperadas, às compras nos shoppings, nos mercados, nas ruas de comércio popular… E procuram se enganar, mesmo diante dos números que não mentem, e que mostram a sua cara todos os dias.
O Brasil é mesmo um país de incoerências e de contrastes. Formado por uma pequena elite, que detém o poder e por uma imensa população que segue sob o seu comando, o país tende a viver tragédia ainda maior, simplesmente porque esse povo é cego e, por conseguinte, incapaz de enxergar que ele não tem importância qualquer para a minoria dominante.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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