De uns tempos para cá, muito tenho ouvido sobre um tal gabinete do ódio. A princípio, considerei meio estranho e exagerado o título conferido a um seleto grupo que ocupa o primeiríssimo escalão do poder, nesta pátria de meu Deus. No entanto, depois de um longo período de convivência com a expressão, acabei por me habituar e não mais vê-la como extrema. Mesmo porque, tornou-se corriqueira na vida da gente deste circo, acostumada aos rigores de uma sociedade injusta e sem lei. É a normalidade da situação que nos impõe aceitá-la, afinal. Aliás, os dedos de compridas unhas sujas daqueles se habituaram rapidamente a tocar em tudo que possam fazer convergir em seu favor. E foi assim que a situação assumiu um aspecto banal, de tal sorte que o gabinete logo passou a ser visto somente como mais um ministério.
Entretanto, observando, aqui e ali, o comportamento de pessoas comuns que sofrem a influência nefasta do poder, cheguei à constatação de que o gabinete do ódio também se aloja confortavelmente no coração de cada um que perambula por esta bela e rancorosa terra. No mundo todo funciona assim, diga-se de passagem. Só que aqui, deste lado do planeta, onde o sol faz morada ano todo, a coisa é levada bem mais a sério, uma vez que a chamada direita, lado conservador dos bons costumes, da família e dos ternos olhos sempre voltados para o alto, é formada por gente que adora praticar o ódio contra o próximo que não divide com ela a mesma opinião acerca de suas ideias. Detesta-o por convicção, só porque se diz de esquerda, que naturalmente é o contrário de direita, e consequentemente o revés de tudo o que o conservador toma como valoroso. O esquerdista é, pois, adepto de um conceito diferente de sociedade, que privilegia a justiça e a distribuição mais justa de renda. Daí a sua rusga com a direita, com quem não nutre qualquer simpatia, por sempre defender quem não necessita de defesa.
É desalentador, pois, pensar que o gabinete do ódio habita, soberano, o peito daqueles que se detestam pontualmente todos os dias da vida. Lembrando sempre que as mentes sórdidas, detentoras do poder que direciona os rumos do país e de sua gente, muito têm se esforçado para que esse amor às avessas se intensifique até que os ser humano, concebido à imagem do Criador e chamado aqui povo, desperte do fundo do seu âmago o desejo ardente de meter os dedos na garganta do semelhante e apertar bem apertadinho. E essa realidade é possível acompanhar por meio dos modernos veículos de comunicação, que vieram para informar em tempo real e também para auxiliar no fomento à disseminação da intolerância.
Pessoas tementes a Deus costumam falar que vivemos o final dos tempos. Outras dizem que o mundo terá que se adaptar a um novo normal logo que passar a pandemia. Ainda que o ódio, objeto desta conversa, seja doença bem mais antiga e, para a qual, não haja vacina em teste em nenhum centro de pesquisa do mundo. Não que eu me lembre.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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