OS INTOCÁVEIS

Televisão é coisa antiga que surgiu para ocupar lugar de destaque na vida das pessoas de todo o mundo, sobretudo, deste vastíssimo continente chamado Brasil. Sua função primeira é levar entretenimento e informação às massas, gente à beça que se deleita todos os dias na frente da telinha. Costume que, aliás, vem de longe! Eu mesmo, quando criança, me envolvia com o mundo mágico que clareava a sala e a minha imaginação. Lembro-me bem de alguns programas, filmes e seriados que não perdíamos por nada, e que eram reprisados um sem número de vezes, até decorarmos as falas. Recordo-me, inclusive, de uma série policial muito antiga que ainda é capaz de despertar uma pontinha de nostalgia naquele que viveu intensamente esta época. Refiro-me ao filme “Os Intocáveis”.

E não sei bem o porquê de aquelas cenas antigas terem, de repente, ganhado protagonismo dentre as minhas lembranças. Possivelmente por causa de acontecimentos sombrios que vivemos hoje, que remetem, não propriamente ao filme, mas ao seu título. São fatos que se sucedem e que a imprensa distraída muitas vezes se esquece de levar ao conhecimento do público com o devido rigor.

Dia desses comecei a pensar e brincar com a imaginação como fizera outrora, até os fatos assumirem um aspecto chuviscado e em preto e branco. Mas o sonho não demorou a acabar, talvez por não ter me acostumado muito bem com o desbotado dos tempos. Voltei, então, ao dia a dia do mundo 4K. Mesmo assim, o título do filme continuou a martelar na minha memória justamente por lembrar situação semelhante a que vivemos em dias atuais, apesar de que aqui em terra de ninguém, para ser intocável como no filme, é necessário que se esteja contra a lei, e não a favor dela. E o bandido que protagonizara o espetáculo das telas daquele tempo era sujeito cheio de grana e poderoso que corria da polícia intocável. Mas aqui é diferente, já que intocável é a gente, da mesma forma poderosa, metida na lama do crime até o pescoço, que se esconde sob as asas que conspiram para que permaneça onde está.

         E, imagine você, são as figuras de destaque no poder deste gigantesco circo que me fazem lembrar do seriado da minha infância. Basta que pensemos na quantidade de denúncias envolvendo essa nata, que os meios de comunicação, timidamente, procuram levar aos aparelhos de cada lar. Denúncias que envolvem gente graúda, sempre com o dedinho no comando da nação. De início surgem as evidências. Depois, com o avanço das investigações, aparecem as provas irrefutáveis. Escancaradas, para ser mais exato.

Mas a justiça, morosa que só vendo, passa os papéis de mãos em mãos, deixa alguma folha cair, outras voarem ao sabor do vento, enquanto novos escândalos vão surgindo. Um se sobrepondo ao outro.

A imprensa comenta, o povo comenta e, dada a providência nenhuma, tudo é conduzido a um canto, normalmente ofuscado por qualquer outro fato de menor relevância ou de relevância nenhuma. E assim, a sujeira vai sendo varrida para debaixo de um enorme tapete.

E todos os intocáveis seguem desfrutando de sua atividade predileta de ditar as regras no poder. Tudo perfeitamente compreensível, uma vez que foram eleitos para isso, embora empurrar ladeira abaixo a esperança do povo sofrido deste país, também faça parte dos seus anseios.

Dói, pois, na alma saber que o matuto desta terra não tem a menor noção do que faz quando coloca seu dedo calejado na máquina que só pede um número. Desconhece, a gente simples, o seu verdadeiro papel nesse imenso picadeiro. Não tem a menor consciência, o coitadinho, de que promover a justiça e a igualdade social depende exclusivamente dele. Se soubesse o tamanho do seu poder, talvez o país remasse para destinos outros que certamente o colocariam no seu devido lugar no cenário mundial. O lugar de nação rica e soberana.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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