Estamos em época de eleições, aqui e acolá. A todo instante nossa conversa ou o que quer que estejamos ouvindo é cortada pelo barulho ensurdecedor do carro que passa para trazer as boas novas que normalmente se traduzem em promessas do candidato. Aquele que, em troca do seu voto, se propõe a arregaçar as mangas e trabalhar duro. Sempre esbanjando honestidade e muita seriedade que o cargo exige.
Os panfletos se acumulam no portão e na caixa de correio. Hoje mesmo recebi um que tinha a forma do rosto do sujeito. Estranhei de imediato e ainda passei um segundo olhando para a cara do fulano, antes de lançá-lo na lixeira. E, louvado seja Deus, nosso aparelho de TV é daqueles à prova de horário político. Milagre da tecnologia, sabe? É como se a tal programação não existisse.
Sei que há de me repreender o democrático leitor, perguntando-me em que gaveta amarelou o meu civismo, ou então, o porquê de dar as costas para o candidato e sua eterna dedicação à causa pública. Talvez eu tenha mesmo me cansado de tudo o que está ligado à política deste imenso circo, palco de tanta patifaria, onde os atores se esmeram na defesa de interesses outros, pouco ou nada comprometidos com os problemas do povo.
E exausto com tudo isso, de olho no avanço tecnológico que nos presenteia com tão extraordinário aparelho que é a televisão, já penso em guardar um dinheirinho para o lançamento, que não deve demorar, de um que também não faça cobertura de eleições internacionais, que possua canais de jornalismo que se limitem a dar uma pincelada no que ocorre no pleito do quintal alheio, sem se ater muito à questão. Assim como cobriram a escolha do novo presidente ali no vizinho, casa para onde Evo ora retorna.
Só que o invento tão aguardado parece não ter deixado a prancheta, razão pela qual os noticiários se fartaram de cobrir em detalhes, exagero de detalhes, as eleições lá no império do norte, evento que o mundo acompanhou, compartilhando do mesmo anseio pela queda do imperador que muita desfeita propagou por esta Terra. De fato o sentimento de ódio criado pelo indivíduo ganhou asas e voou para os quatro cantos do globo, fazendo, inclusive, longa parada neste imenso sertão só para apreciar a paisagem. Seguidores, então, é o que não lhe faltou por toda parte em que esteve. São pessoas dotadas de um fanatismo atroz, furor que incendeia os corações de gente que teria desdenhado do conhecimento durante toda a sua existência, e que, por isso, não desenvolveu, dentre tantas habilidades, a criticidade, coisa que inferniza a vida de líderes autoritários. Normalmente os admiradores da empáfia autoritária são criaturas sempre propensas a odiar o sujeito que não divide com elas a mesma opinião acerca de assunto qualquer. Trata-se, afinal, de um tipo que se cobre de orgulho de ver postada em rede social uma foto sua, empunhando numa das mãos uma bíblia e na outra, uma arma. E eu não suspeitava do enorme tamanho de seu contingente.
Basta, pois, que se manifestem líderes absolutistas para que brotem aqui e ali hordas carregadas de afinidade com o indivíduo que assumiu o poder somente para propagar o ódio em larga escala. É a obscuridade tentando tapar a luz do sol que tanta vida traz à Terra.
E infelizmente as eleições em países democráticos, não raro, colocam no comando gente que não tem lá grande apreço pela diplomacia. São pessoas que pensam atingir seus objetivos a partir do grito, da fala grossa e dos punhos cerrados. Penso até em como seria bom possuir algum conhecimento científico para isolar a bactéria que infesta o cérebro de parca atividade destas criaturas. Quem sabe conseguisse um antídoto para evitar a contaminação da gente simples que ainda acredita no bem, embora seja suscetível à mesma doença.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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