Asfixia é, por definição, dificuldade ou impossibilidade de respirar. Tecnicamente o termo tem a aparência de algo tão normal quanto andar ou comer. Na prática, contudo, a coisa em si lembra o desespero de repentinamente se ver privado de sentir o ar fluir para dentro de si, condição primeira para que continue vivo.
E este mesmo ar que entra e sai do nosso organismo, todo o tempo, noite e dia, se nos afigura corriqueiro e, por conseguinte, passível de esquecimento, apesar de se sabê-lo essencial. Claro que a lembrança dele costuma vir no exato momento em que é impedido de cumprir o seu papel de nos manter de pé, pensando em tudo isso.
Pessoas, vez ou outra, são vítimas das mãos assassinas que buscam suas gargantas para asfixiá-las. Outras, pela água que invade suas vias respiratórias, provocando afogamento, no lazer da praia, do rio… Algumas ainda são presas da asfixia do desemprego, da humilhação, do desalento…
Todo o empenho na elaboração desse conceito me ocorreu, pois, justamente quando assisti à sufocante situação de uma cidade daqui deste vasto rincão, que se descuidou e deu sopa para a peste, que quando mata, também mata por asfixia. Na verdade, moradores de outras cidades tiveram e têm a mesma conduta. Só que para aquele lugar a tragédia chegou avassaladora. Talvez pela sua condição geográfica associada aos recursos escassos é que ele sucumbiu à molécula daninha que busca os corpos humanos para disseminar a doença.
E a cidade do norte, dada as suas características, é carente da atenção de órgãos governamentais, aos quais é atribuído, desde sempre, o dever de zelar pelo bem-estar do povo de todo este imenso território. Mas eles não compareceram, deixando à míngua toda a região. Não tiveram o devido cuidado para com aquela gente que se viu sufocada pela falta de leitos, de hospitais, de atendimento e, por fim, de oxigênio. Refiro-me aqui ao gás que navega no bojo do ar que invade nossos pulmões, mantendo em dia nossas funções vitais. Aquilo que não poderia, em hipótese alguma, faltar nos hospitais, locais, a princípio, concebidos para salvar vidas, e que repentinamente viram morrer seus pacientes, que agonizaram, um a um, como se tivessem um saco plástico metido em suas cabeças.
Sufocada com o desespero dos familiares na corrida frenética atrás do precioso gás, indagou a gente de todo país sobre o porquê de governos não terem previsto, com razoável antecedência, a catástrofe anunciada. Respostas vagas e a embromação à moda da casa se sobrepuseram ao drama, e o vilão ainda posou de salvador.
Chega mesmo a nos faltar o ar conviver dia a dia, por meio das reportagens que nos chegam, com o sufoco de um povo que se angustia e chora e dá depoimentos e cobra e grita por socorro quando não há funerária para enterrar seus mortos. Mortos pela asfixia causada pelo mal que carregam no peito e mortos pela asfixia por falta de oxigênio, elemento obrigatório em qualquer unidade de saúde do mundo.
Mas o poder dá as costas para o drama de um povo que, em grande parte, lhe concedeu o voto sem saber que botava uma arma na própria cabeça.
Muito oxigênio foi doado à cidade. Até mesmo por país vizinho, visto como inimigo pelo comando daqui. Mas toda a carga não foi suficiente, e a tragédia continua asfixiando doentes e as pessoas de toda a nação, que possuem inteligência, sensibilidade e, consequentemente, empatia.
Asfixiante também são os relatos de enfermeiras sobre pacientes que fogem dos hospitais, aterrorizados pelas cenas à sua volta. Cenas corriqueiras de pessoas mortas por sufocação. É por isso que quem ainda não sucumbiu à doença, mesmo carregando o vírus, vê-se aliviado ao deixar seu leito de hospital para morrer em casa, ao lado da família.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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