O deus da insensatez reina como nunca nos céus deste país de gente insana. Vive-se hoje o momento mais dramático desde que a peste aqui aportou, e as medidas restritivas não estão em consonância com a realidade de colapso no setor de saúde. Creio mesmo que exista um sentimento de cumplicidade do poder para com a morte, uma vez que a corteja e lhe concede sinal verde para que possa avançar cada vez mais e levar de roldão centenas de milhares.
Governadores e prefeitos batem cabeça com o empresariado, que não aceita o fechamento por completo. E o que se vê são paliativos, para os quais se dá o nome de restrição, toque de recolher ou qualquer coisa que o valha. Na verdade, medidas ostensivas para inglês ver, é o que são. E nem é preciso ser matemático para formular ma uma equação que explique o fenômeno da vaidade e da sede de poder, que coloca de quatro o ser humano e sua mania de ser Deus.
Infectologistas alertam para o perigo de não se tomar uma atitude drástica, mas político é normalmente surdo para as questões da ciência, e o resultado não é outro senão o desespero de quem aguarda uma vaga num hospital e tem que se dar por satisfeito se conseguir uma maca dentro de uma ambulância ou uma cadeira de rodas num corredor qualquer. O poder tem consciência do pouco que faz, mas perde o sono só de imaginar suas futuras candidaturas em xeque, já que necessitará do apoio financeiro do empresário ora em desvantagem e, claro, do voto das pessoas que perdem o emprego por causa das restrições. E políticos de carteirinha também sofrem a angústia de quem é obrigado a comer na mão de gente graúda, que não tolera posturas extremas no que diz respeito às regras de distanciamento. Pessoas cujo nível social as impede de enxergar as cidades apinhadas de gente aflita e faminta, em momento tão crucial. Por isso, governantes relutam em agir. A princípio, foram eleitos para cuidar do povo, mas seu interesse particular vem antes da saúde da população, que definha a olhos vistos.
À pessoa comum, cabe somente fazer a sua parte, que não lhe exige esforço assim tão grande. Obviamente que não me refiro ao trabalhador. Falo daquele que finge não entender o clamor pelo distanciamento e se lança de cabeça no abismo da contaminação. É um jogo em que o sujeito pode contrair o vírus, ficar assintomático, mas levar para outros que nem no diabo da festa estiveram. Claro que o indivíduo, mesmo jovem, pode, no encontro clandestino, meter no peito o tinhoso que lhe consumirá as entranhas e fará com que tenha de procurar atendimento hospitalar, que não encontrará. Ou, se conseguir, necessariamente tirará de um inocente o direito ao tratamento. São criminosos, portanto os atores dessa tragédia, que ora toma de assalto este vastíssimo território de vastíssima ignorância. E o desdém para com a praga vem promovendo a morte por atacado. Alguns alegam que essa gente de parco saber é estimulada pelo poder central, que vem na contramão da vida e que dissemina o ódio nas mentes que se afinam com tudo o que é vil.
E, por esta razão, os cérebros mais esclarecidos gastam preciosa energia se revoltando com a atitude de pessoas que seguem de olhos fechados o comando que as utiliza para benefício próprio. Na verdade, elas nada sabem, uma vez que carregam no coro o gene da estupidez, doença para a qual ainda não se descobriu antídoto. E babam e derramam lágrimas de júbilo diante do ídolo que pensam governar a nação. São incapazes de elaborar julgamento sob a ótica da verdade, porque lhes falta o conhecimento.
E assim o cortejo silencioso segue o seu rumo. É o povo que sobreviveu, mas que há muito deixou de carregar nos olhos o brilho da esperança.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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