O SANGUE DE TODOS NÓS

O Brasil sangra por causa da peste.

O Brasil sangra pelos olhos de cada um que presencia, inconsolado, a morte que desliza suave como um rolo compressor sobre uma população que não sabe para onde correr, e, mesmo que soubesse, não teria meios para fugir.

Há sangue no olhar daquele que vê na morte do semelhante a única alternativa para ver bem sucedidos seus planos de enriquecimento e consequente tomada do poder. Não se importa, na verdade, com o sangue que verte do corpo alheio. Se é disso que depende para sustentar seus interesses, que derrame, que esparrame pelo chão e por toda parte. Desde que o líquido precioso escorra de pessoas, cuja condição social não lhes permite se defender, que encharque o solo.

É possível também ver enorme quantidade de sangue no pensamento do indivíduo que dispõe de uma caneta que poderia ser usada para salvar, mas que tem a sua utilidade voltada exclusivamente para a morte da gente que o rejeitara e da gente que o apoiara. Conta ainda, para consumar seu plano nefasto, com uma legião que se deleita com o massacre de seres humanos, cujo sangue derramado, de alguma forma, é útil aos seus propósitos sombrios.

Sangue há nas lágrimas que sepultam o que restou de seus entes queridos logo após o ataque do vírus ou da arma de fogo. Aliás, neste quesito há projetos de lei que facilitam a aquisição desses objetos de morte. Máquinas à disposição de pessoas que logicamente dispõem de recursos para adquiri-las. Aos pobres deste esquecido território, todavia, só é dado o direito de sonhar com um pacote de arroz e outro de feijão. O gás pode ser substituído por lenha. AR15, boa parte desconhece o preço. Alguns, o significado.

Há muito sangue nas calçadas, nos degraus, no interior das casas. A princípio, o terror embarga a voz das pessoas que mal conseguem dar o seu testemunho à reportagem. Depois, a normalidade manda que peguem os baldes com água e toquem para sarjetas e bueiros toda a vermelhidão que resultou da matança. Mesmo porque, já já tudo estará esquecido pela sociedade, que voltará seu olhar para outros derramamentos: derramamentos de recursos, de lágrimas de mais sangue… Porque o Brasil de hoje derrama-se em generosidades para o garimpo ilegal, para a destruição da grande floresta, para o extermínio do povo nativo, para a imoralidade.

Milhões de reais são desviados para irrigar fartamente as contas bancárias de uns poucos, enquanto o sangue, que deveria irrigar o bucho do pobre quando da digestão de alimentos, para ali não vai, certo de que nada encontrará. Da mesma forma que não chega esperança nesses corações, por enquanto com sangue.

Tudo isso nos leva a pensar acerca da nossa natureza humana, brasileira e, por conseguinte, de aspecto cultural semelhante. De onde, afinal, parte tanto ódio? Só a grana e o poder seriam responsáveis pelo massacre de um povo, cuja única culpa foi ter nascido pobre? Destaque para o fato de a pobreza conduzir essa mesma população também à pobreza mental que está associada à entrega do comando do país a uma horda toda ela comprometida com o ganho fácil. Gente de bem que corre de braços abertos para o objetivo a ser atingido, mesmo que, para tanto, seja necessário pisar na cabeça do eleitor e derramar o seu sangue.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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