Depois de um longo dia dedicado ao nada fácil trabalho de diarista, Fátima descansava um pouco no duro assento oferecido pelo serviço público aos usuários de ônibus que aguardam, ansiosos, o retorno para casa. Estava exausta, pois, além de dar duro para ganhar a vida, estudava em curso noturno que haveria de lhe oferecer uma oportunidade melhor. Pensava nisso e observava a noite de poucos transeuntes, na rua de pouco movimento. A condução custava a chegar naquela hora, e ela estava sozinha. Ansiava pelo retorno ao lar.
E passava das dez quando o carro parou na sua frente. Desejou intimamente que fosse algum conhecido que, em boa hora, lhe oferecesse carona, embora tenha suspeitado também de algo ruim, já que sentimentos assim estão sempre no pensamento das pessoas, constantemente atormentado com a desconfiança e o medo.
Os sinistros vidros escuros não lhe permitiram distinguir os rostos carregados de selvageria oriunda das drogas. Nem teve tempo de pensar. Assim que os três homens saltaram, braços fortes agarraram-na e contiveram seus movimentos. Tentou gritar, mas a mão tapou-lhe a boca e, dominada, com a mente envolta num turbilhão de perplexidade e terror, ainda forçou alguns passos em direção à rua, numa tentativa desesperada de fuga, arrastando consigo os algozes que atentavam contra sua vida.
A primeira pancada atingiu seu abdome, fazendo-a estremecer de dor. Outras tantas feriram seu rosto, sua cabeça, e ela foi ao chão quando a sequência de golpes anulou qualquer intenção de defesa. Estava aterrorizada e só conseguia pensar na possibilidade de alguém passar, quem sabe uma viatura… Qualquer um que pudesse impedir toda aquela agressão…
No solo, um pedaço de pano, ou coisa que o valha, agora fazia a vez da mão, sufocando-a e impedindo a passagem do grito agoniado.
Seus braços foram torcidos até partirem-se e suas pernas receberam tantos pontapés e pisadas que certamente não tinham mais forças para levantar e andar.
As dores eram tantas e tão intensas que após o curto período em que durou o espancamento, uma espécie de torpor começou a anestesiá-la. Fátima, meio atordoada, estranhou: nunca vira tão de perto o calçamento da rua sob a claridade da lâmpada de sódio. Olhava-o e até podia sentir seu cheiro, enquanto ainda era sacudida por solados impiedosos que castigavam suas costelas, seus rins, sua coluna, até que uma espessa baba com gosto de sangue rompeu pelo asfalto. Não entendia a razão de tudo aquilo. Parecia irreal, divagava.
Aos poucos tudo foi se transformando numa névoa, até que perdeu a consciência e nada mais sentiu, nada mais ouviu, desligou-se do mundo como num sono pesado, sem sonho.
A memória de Fátima era um vazio quando acordou e se viu em um lugar estranho e, ao mesmo tempo, familiar. Havia muita confusão em sua mente repleta de imagens desconexas. Gente alegre espalhada por toda parte tornava mais difícil o entendimento e ela começou a sentir desespero por não compreender o que se passava. Seu próprio corpo tinha uma aparência meio desfocada, um tanto esquisita.
Não sabia que tivera família, que fora Fátima que um grupo de rapazes ensandecidos resolvera espancar por conta de uma aventura desumana ou, mais propriamente, humana.
Andou, ou ainda, deslocou-se pelo local e foi tomada por estranha sensação de bem-estar, conforto, tranquilidade, desejo imenso de permanecer ali, assim; estado este que logo se desvaneceu ao lembrar-se da filha pequena que deixara na casa de uma amiga, como fazia todos os dias.
Entrou em pânico quando cenas recentes lhe foram preenchendo devagar as lembranças e descobriu, finalmente, quem era ou quem tinha sido. Desesperou-se e as quentes lágrimas que pensava ter, rolaram pelo rosto ectoplásmico.
Desejou, então, profundamente, estar viva, voltar para um mundo de sacrifícios e violência, mas que era o seu lar, de onde fora arrebatada tão jovem. Percebera, afinal, que chegara ali, porque morrera. Mais uma vez entrou em pânico. Tudo ali era muito lindo com flores, árvores, paisagens… Havia pessoas tentando ajudá-la com palavras de consolo e sorrisos amáveis. Mas Fátima recusava-se a atendê-los. Estava inconformada. Não era decisão sua ficar ou não. Não havia escolha. Chorava muito, e as pessoas ao seu redor pareciam-lhe agora hostis. Tudo o que desejava era morrer. Mas… Estava morta.
Revoltou-se e gritou a plenos e etéreos pulmões, caindo sem sentidos.
Luís Cláudio jamais esquecera aquela imagem da garota prostrada no meio fio, protagonista das manchetes do dia seguinte em que testemunhas disseram ter visto três rapazes espancando a vítima até a morte.
Nada acontecera, porém, e as investigações resultaram em papéis inúteis que só fizeram engrossar os arquivos, e o caso caiu no esquecimento.
Meses após o crime, uma tragédia matou os amigos de Luís e para este restou arcar com o grande tormento que já pesava por cinco anos em sua consciência.
Sentia verdadeiro terror diante da possibilidade de perder a mulher, uma vez descoberto.
Atormentava-se ao imaginar vítima da mesma fúria seu único grande amor, pessoa que sacrificara parte da vida a ajudá-lo no combate ao vício, ele que agora dirigia com muita competência os negócios do pai. A companheira era pessoa determinada que conquistara seu amor no tempo em que servira como voluntária num hospital para toxicômanos, ocasião em que Luís livrou-se do inferno da dependência química graças à obstinação dela com quem acabou se unindo.
Era uma morena bonita, de semblante calmo e decidido. Sua simpatia, aliada a tantos predicativos, cativou o moço que, ao contrário do que desejava, apaixonou-se perdidamente.
Eunice perdera muito cedo os pais, e irmãos, não possuía, segundo dissera. Também não fizera questão de se casar. Definitivamente não fazia parte de seus planos e Luís Cláudio não se importava com a sua decisão. Queria-a, e isso bastava.
Nascia um grande amor que com o passar dos anos ganhou ainda mais força, tornou-se mais intenso e o rapaz só não se conformava com o fato de não lhe dar filhos, esse amor.
Fisicamente nada lhe impedia a paternidade, conforme constataram os exames. Eunice, porém, recusava-se a se submeter a uma simples consulta. Ele não entendia o porquê, embora não insistisse para não magoá-la. Tudo pela obsessão de não perdê-la.
Apesar da frustração que causava a falta de herdeiros que consolidariam aquela relação extraordinária, Luís Cláudio era feliz, tinha dinheiro para comprar o que quisesse e ainda possuía Eunice.
Entretanto, um espectro o acompanhava: a constante presença da moça brutalmente assassinada cinco anos antes.
E tanto pensou que, por fim, decidiu investigar o paradeiro da família de Fátima e, sem que ninguém soubesse, ajudá-los de alguma forma. Sabia que não poderia reparar o mal que fizera, mas anonimamente buscaria auxiliar os pais, lembrando a origem humilde da moça.
Luís Cláudio teve, inclusive, o cuidado de não contratar um detetive, para não levantar suspeitas. Mesmo assim não encontrou dificuldade para encontrar a residência da vítima, cujo rosto nunca vira e a respeito de quem quase nada sabia, pois na noite fatídica tinha a mente transtornada, e tampouco quis ver os jornais do dia seguinte, que certamente traziam seu nome e seu retrato. Procurava nada saber, como se pudesse desfazer o mal, ignorando-o. Seus comparsas, na época, não se importavam, mas ele, líder do grupo, iniciara toda uma existência de angústia.
E, carregado de obstinação, buscou jornais antigos, vasculhou a internet, se desdobrou para encontrar a família ou alguém que a representasse. Tinha que ajudar aquela gente, cujo mal que lhe impingira não tinha mesmo como reparar. Sabia que mesmo amparando-a, haveria de carregar aquela culpa para o resto da vida.
Finalmente, de posse do endereço, pensou numa desculpa para entrar e conhecê-los. Apresentou-se, pois, como empresário do ramo imobiliário que fazia um estudo para um futuro empreendimento nas cercanias. Foi muito bem recebido pelo Sr.Agenor que abriu a porta da casa para que entrasse. Luís temia que o coração acelerado viesse a denunciá-lo no momento da conversa.
Luís Cláudio, então, perguntou ao homem se era casado e foi informado de que era viúvo. A mulher morrera alguns meses depois de uma tragédia que desabou sobre a família: o assassinato brutal da filha mais jovem. Luís sentiu um calafrio.
Mas foi na sala que o rapaz viu algo estarrecedor: uma fotografia de Eunice, a sua Eunice, em tamanho grande, na parede. Começou a tremer e a suar ao olhar por toda volta e ver outros quadros, com fotos de sua mulher.
Luís, não conseguindo dissimular o terror, ouviu do anfitrião que aquela era Fátima, sua querida filha morta.
Agenor perguntou a razão de tamanha surpresa: “Acaso conhecia minha filha?”. Luís Cláudio respondeu que não e sentou-se analisando, estupefato, rosto a rosto, e não havia dúvida, tratava-se da mesma pessoa. Luís Cláudio suava e respirava com dificuldade ao lembrar-se da origem desconhecida da mulher, do quase nada que falava sobre si. Então, um misto de terror com incredulidade apossou-se do rapaz, que perdera a fala, e era observado com desconfiança pelo anfitrião.
“Deseja uma água, senhor…? Como é mesmo o seu nome?”
Luís Cláudio nada respondeu. Levantou-se repentinamente e saiu sem se despedir. Estava transtornado.
Eunice não estava em casa, quando chegou. Procurou-a por toda parte. Desesperou-se. Ligou para o seu celular. Ele tocou em alguma parte da casa. Ela o deixara, gesto nada comum, já que sempre o levava quando saía.
Os dias se passaram e nada de Eunice voltar para casa. O rapaz foi aos amigos, à polícia, aos hospitais, pediu ajuda aos jornais, distribuiu panfletos, foi às redes sociais… Chorou noite e dia por dois meses. Era o fim. Como viveria sem o grande amor de sua vida? E aquelas fotos na casa de Agenor?
Definitivamente não acreditava em fenômenos sobrenaturais, mas não restavam alternativas, as possibilidades esgotaram-se e, em constante conflito interior, começou a pensar nisso também.
Luís Cláudio entregou-se à apatia, à tristeza, não mais trabalhava, deixou os negócios em mãos alheias que começavam a levá-lo à falência. Descuidou do próprio asseio, não se alimentava. Buscou novamente as drogas. Afinal, não viveria por muito tempo sem Eunice. Sobretudo considerava a morte um premio diante da dor que representava sua ausência.
Exausto, não conseguia tirar da mente aquela galeria de retratos da vítima que era a imagem da sua mulher.
Luís Cláudio, então, decidiu que era momento de correr ao cemitério onde estava sepultada a tal moça, conforme lhe disseram. Buscava respostas. Armara-se de coragem, pois sabia que deveria enfrentar a verdade, fosse ela qual fosse.
E, ao chegar diante do jazigo, viu a lápide onde era possível se ler: Fátima Eunice Ribeiro. E na foto, ao lado das palavras de saudades, o olhar penetrante era dirigido a ele.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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