ESSÊNCIA

─ Seja bem vinda, essência!

─ Vossa excelência, você quer dizer. Mas, afinal, que lugar é esse?

─ É a sua nova morada.

─ Que morada? Quem é você?

─ Sou somente o seu anfitrião, e este é o lugar que vai recebê-lo para, quem sabe, uns ajustes.

─ Eu não entendo nada. Cadê a minha casa? Minha família, onde está?

─ Já lhe disse, essência, este é o lugar que o receberá de braços abertos, oxalá para uma boa e tonificante temporada.

─ Mas tudo aqui é sombrio!

─ Sombrio como a sua alma que pautou seus gestos, atitudes e palavras lá no plano que acaba de deixar. Vá se familiarizando. Tudo aqui está de acordo com o mais íntimo do seu ser. Encontrará, inclusive, companheiros com mentes afinadas com a sua.

─ Eu continuo não entendendo nada! Cadê meus ajudantes de ordem, cadê a guarda?

─ Devo lhe informar, essência, que para aqui veio só.

─ Você pare de me chamar assim! Eu tenho nome! Caso não saiba, sou…

─ Sim, eu sei. Sei quem você foi e quem é agora. Chamava-se fulano de tal, mas devo lhe informar, se este é o seu desejo, de que este nome ficou escrito na sua lápide, lá atrás, em lugar para onde tão cedo não retornará. Houve até bonita e pomposa cerimônia, enquanto esfriava seu corpo, dando por encerrado um ciclo que deveria ter lhe servido como meio de evolução, mas que desperdiçara inabilmente. Poder e autoritarismo também foram sepultados ali. O que lhe restou foi somente o que sobra de todos quando de sua viagem definitiva: a essência.

─ Mas de que diabos está falando?

─ Aconselho-o a ouvir atentamente para que entenda. Tem essências de várias graduações ou níveis, como preferir. Mas no cômputo geral existem somente duas: as boas e as más. Ambas com variações de intensidade. Falo, ao me referir às boas essências, daqueles seres que souberam aproveitar bem a vida no plano terrestre. Pessoas de coração grande e mente atenta, de qualquer trabalho ou especialidade, religiosas ou não, de família ou soltas pelo mundo, de qualquer sexo, enfim. Já as essências ruins são aquelas que assumiram viver ali com seu espírito voltado unicamente para as trevas, sempre propensas a promover o mal. Seres violentos de toda a sorte. Se lhe custa entender, eu explico: agressores, disseminadores de ódio, que atentaram contra o próximo, contra um povo, genocidas e por aí vai.

─ Tá. E o que eu tenho com isso. Eu era bom, cuidava do povo, fui o melhor líder que eles tiveram. Aliás, fui escolhido por eles, e…

─ Basta!

─ Tudo bem! Mas me explica: por que vim parar neste tribunal?

─ Isso não é um tribunal. Numa corte há advogados de defesa e de acusação, também um juiz e um corpo de jurados. Tudo para determinar se o réu é culpado ou não. Aqui não há julgamento. Sua condenação está consumada, como consumado está o seu destino.

─ Como assim? Fale sem rodeios.

─ Pense, ó essência ruim. Não foi este lugar que o atraiu, foi você que atraiu este lugar. Desejou-o sem saber. A escuridão da sua alma é perfeitamente compatível com tudo o que verá aqui.  O obscurantismo que norteou a sua existência terrena se materializa agora, de acordo com a sua vontade.

─ Pois fique sabendo que eu tenho meus direitos, aqui ou em qualquer lugar. Muita gente me apoia. Eu exijo justiça!

─ E é justamente o que terá aqui: seus direitos e toda a justiça a você conferida. Quanto aos apoiadores, também os terá aqui neste vasto paraíso das sombras, para o qual convido-o a entrar. Esteja à vontade, ó essência!

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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